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INTRODUÇÃO À GUERRA
Pedro Lomba jurista pedro.lomba@eui.eu
A minha geração e a anterior já se deixaram há muito de discotecas. Talvez nunca tenham gostado. Agora, acho que todos preferimos é ir a festas. Podem ser festas públicas como os santos populares. Podem ser casamentos. Ou podem ser as festas dos amigos e dos amigos dos amigos, de que gostamos sempre mais por antevermos outro potencial de novidade. A festa transformou-se no acontecimento mais representativo de um tempo em que somos todos narcisistas sociais, isto é, falsos individualistas do Facebook e do Orkut. Ou como escreveu um dos seus principais cronistas, Bret Easton Ellis: "No mundo onde cresci era na Festa que tudo da vida se passava."
A festa é uma miniatura dos jogos sociais. Imaginemos uma pequena multidão dentro de um recinto fechado e a pouca luz. Virtudes e defeitos em quantidade. Tristeza e beleza. Gente com expectativas, gente com avaliações. Clãs. A melhor metáfora para a festa é talvez o campo de batalha. Na festa também se vêem tropas, estratégias, alianças e períodos de guerra intervalados por períodos de paz.
E, tal como na verdadeira guerra, é preciso experiência e treino. Quando chegamos é com o atraso certo. Conhecemos o dono da casa, ou o dono da festa, ou o dono do que quer que seja, porque nas festas há sempre alguém que é dono de qualquer coisa. O casaco deixa-se na menina do bengaleiro que agradece, solícita e apalermada. Cumprimentamos quem nos cumprimenta. Cumprimentamos quem não quer ser cumprimentado. Não conhecemos metade das pessoas e da outra metade temos apenas conceitos.
E vamos circulando, circulando sempre, não paramos a não ser que alguém tome a iniciativa. Passa uma mulher deslumbrante mas sem subtileza. Três raparigas na categoria do "girinha" andam a ver se encontram homens bonitos para aumentarem a auto-estima. Arrumam-se três grunhos ao pé do bar e gesticulam largo e de certeza que não vão a lado nenhum. Cada festa possui uma ordem espontânea, uma lógica grupal pela qual os convidados se organizam. Normalmente, nunca faltam três categorias: os que falam, os que olham e os que bebem. A maioria dos que estão na festa fazem estas três coisas. Só poucos, mais inteligentes, concentram-se apenas numa.
São quatro da manhã e, como no filme, sente-se no ar "o medo do apartamento vazio". Há quem esteja emocional e há quem esteja para o outro lado. Há quem dance com fúria e há quem debite intelectualidades sobre o Zimbabwe. À nossa frente está um argentino feio mas cómico que, por ser cómico, vai dando passos acolitado por uma loira. Ouvimos o nosso nome quando uma pessoa vagamente familiar se aproxima de nós e pergunta como é que estamos. Estamos bem mas não nos lembramos dela. E assim ficamos até ao fim da festa: na ignorância.|
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