Quinta, 3 de Julho de 2008
Edição Papel
Director: João Marcelino
Directores adjuntos: Filomena Martins,
Rui Hortelão
Subdirectora: Catarina Carvalho
Lisboa
03.07.08
dn.homepage » dn.editorial

O desafio da livre circulação de doentes

No prazo de dois anos, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) vai começar a passar por uma prova de fogo. Nessa altura entra em funcionamento a directiva comunitária que permitirá a todos os cidadãos da UE irem a um serviço de saúde em qualquer Estado membro - desde que Portugal aprove a directiva e lhe dê regras internas, nomeadamente de reembolso dos doentes. Nessa altura poderemos começar a perceber se o nosso SNS aguenta a concorrência dos seus congéneres europeus - a começar pelo espanhol, que fica aqui tão perto.

A proposta de directiva apresentada hoje pela Comissão Europeia ainda terá de ser ratificada pelos governos dos 27, mas é já um grande passo em frente na construção europeia. Neste momento, apenas 4% dos europeus recorrem a tratamento médico no estrangeiro. Esta percentagem vai com toda a certeza disparar quando houver o reembolso das despesas feitas - que, na directiva, se limita para já a ser obrigatório nos casos de urgência.

Não é por falta de dinheiro que o nosso SNS não é mais eficaz. Um estudo da OCDE revelou que Portugal gasta mais com a saúde do que a média dos países ricos: por cá dedicamos 10,2% do PIB à saúde, quando a média nos países desenvolvidos é de 8,9% da riqueza nacional. Como agravante, de acordo com o Eurostat, as famílias portuguesas são as que gastam com saúde a maior percentagem do seu rendimento - 6,1%, o dobro da média da UE 27.

Daqui se conclui que não é por falta de dinheiro que o SNS não é mais eficiente. Não é por falta de dinheiro que há mais de 200 mil portugueses em lista de espera para serem submetidos a cirurgias. Se em dois anos não conseguir ganhar eficácia, o SNS corre o risco de se transformar num guichet onde se passam cheques a quem foi operado no estrangeiro.

Manuela Ferreira Leite pronunciou-se pela discriminação das uniões homossexuais. Não à adopção, não à procriação medicamente assistida. É uma posição pessoal, assumida durante uma entrevista na TVI, mas que acaba por comprometer também o partido que lidera. E num sentido positivo, independentemente de se concordar ou não com a sua visão.

Com PS e PSD a serem acusados de pertencer a um centrão que quase não tem diferenças entre os seus dois pólos, a nova líder social-democrata mostrou ao País pensar de forma diferente do primeiro-ministro, José Sócrates, numa matéria socialmente relevante.

E, se a sua posição foi mera resposta a uma pergunta, não deixa de ser possível um trunfo político. No País nem todos pensam da mesma forma, seja sobre o modelo económico, seja sobre os comportamentos, e por isso diferenciar significa procurar votos. Ferreira Leite sabe que só através da diferença pode ambicionar derrotar Sócrates.|
HOMEPAGE DN NEGÓCIOS FICHA TÉCNICA CONTACTO CARTÃO GN CLASSIFICADOS