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DEMOCRACIA & NEGÓCIOS
João Marcelino
1 José Sócrates tem focado as suas visitas oficiais ao estrangeiro na diplomacia económica. Nesse campo, importante para Portugal no sentido de aumentar as exportações, pode ser "acusado" de insistir na relação com países nos quais a Democracia, tal qual a concebemos no mundo ocidental, ainda não está plenamente assumida pelo sistema político, ou nem sequer é disfarçada.
Com mais ou menos grau de abertura do respectivo regime, é esse o caso de China, Líbia, Rússia, Angola e, até, Venezuela, para onde o primeiro-ministro exportou o seu gosto pelo jogging (com excepção do deserto no qual está instalada a tenda de Kadhafi).
O facto de em alguns desses países os líderes terem sido escolhidos em eleições reconhecidas internacionalmente, como Sócrates lembrou a propósito de Hugo Chávez, não é critério definitivo. Na Rússia também as eleições são livres, reconhecidas, e mesmo assim Putin manda eleger o Presidente de República, a corrupção é generalizada, as máfias estão instaladas e os jornalistas e oposicionistas incómodos para o poder aparecem mortos sem nunca se conseguir descobrir os assassinos. E a Rússia é um país europeu.
2 Não é raro encontrar algumas almas imaculadas, na maioria curiosamente oriundas da militância de extrema-esquerda, criticar estas visitas, que as empresas aplaudem e de que a economia necessita.
O episódio Bob Geldof ainda há pouco acendeu o rastilho de mais uma polémica estéril em que os portugueses gostam de se consumir.
É Angola um caso de Democracia plena? Não, não é. José Eduardo dos Santos é o Presidente de umas eleições que nunca tiveram segunda volta, podemos assinalar. No entanto, vai haver em breve eleições para o Governo entre os vários partidos legalizados, e são muitos. O líder da UNITA, que passou recentemente por Lisboa, critica com violência "a corrupção instalada" em Luanda, e apesar disso vive sem problemas no seu país.
Dizer que Angola vive em ditadura é tão excessivo quanto ver ali uma Democracia consolidada. Mas afirmar, como fez Geldof, que Angola é governada por criminosos é objectivamente um insulto.
Para um país que saiu de uma guerra longa, violenta e fratricida, se calhar até deveria reconhecer-se, ao contrário e com perspectiva histórica, que Angola pode ser um caso de esperança para as nações que em África se predisponham a sair do caldo de corrupção que resulta da pobreza e do analfabetismo.
No que respeita a Portugal, Angola terá sempre de ser um caso de fraternidade entre povos - e, obviamente, um parceria privilegiada de negócios.
3 Tudo isto nos remete para o realismo diplomático de Sócrates. O problema de Portugal, e do bem-estar dos cidadãos, tem tudo a ver com a economia. Com o aumento das exportações. Com o equilíbrio da balança comercial. (Assim como com o aumento da produtividade e aposta na educação.) Neste campo, devemos ser realistas nas parcerias que estabelecemos com todos os países e não candidatos a imolar-nos nas fogueiras do romantismo político.
As trocas comerciais, os negócios, podem, até, ser uma arma bem mais eficaz para combater as ditaduras, porque estas se alimentam da fome e da ignorância.
Não é o boicote, como aquele que se fez à ditadura cubana (regime benquisto de alguns dos que não gostam do realismo do dinheiro), nem a invasão guerreira (como a que se promoveu ao Iraque) que mudam o mundo. Já se viu que não.
O fumo do cigarro de Sócrates cobriu, lamentavelmente, os efeitos económicos da visita à Venezuela. Justo? Injusto? Normal, e inevitável, sobretudo num país pequeno, às vezes ainda demasiado provinciano. Mas Sócrates, neste caso, não pode só queixar-se dos jornalistas. Os governantes devem aprender (e Sócrates foi rápido e politicamente hábil a ultrapassar o caso) que as leis se fazem para todos. Isso vale para a lei do tabaco, mas também para o limite de velocidade nas estradas, o estacionamento em cima dos passeios, etc., etc.|
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