Sábado, 17 de Maio de 2008
Edição Papel
Director: João Marcelino
Directores adjuntos: Filomena Martins,
Rui Hortelão
Subdirectora: Catarina Carvalho
Lisboa
17.05.08
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Manuela e os dois Pedros ao encontro das bases


PAULA SÁ
O BMW conduzido pelo motorista emprestado por José Luís Arnaut pára à porta do Hotel Esperança, em Setúbal. Manuela Ferreira Leite, a dona do carro, sai ao encontro dos companheiros, "os fascistas" como são ainda conhecidos nas terras do Sado, que a esperam já na Sala Arrábida. São aquelas palavras, "seriedade" e "credibilidade", escritas e lidas por Manuela, de que estão à espera. A candidata enfatiza tanto a "gravidade da situação do partido", a que diz tê-la feito avançar, que nem se apercebe que desencadeou a gargalhada na sala com uma alusão à história do "Pedro (pelos menos dois estão na corrida com ela...) e o Lobo".

Quem ali está, duas centenas de jovens e menos jovens militantes sociais-democratas, veio porque pensa como Pedro Lynce, antigo ministro da Educação de Durão Barroso: "Não vou dizer que é uma pessoa fácil (risos). Mas é muito exigente, ouve e decide. É extremamente séria, é uma mulher de coragem."

A sala também vibrou de aplausos ao escutar Manuela, impecável no seu tailleur cinza e colar de pérolas, garantir fidelidade à presidência caso seja eleita, ao contrário, como está implícito, do que fez Menezes: "Não vou deitar a toalha ao chão pela primeira crítica que me seja feita!"

Só se irrita um pouco com a "fama bizarra" de quem enjeita baixar impostos e quando um "companheiro" menciona o fatídico défice orçamental que não conseguiu emagrecer quanto foi ministra das Finanças. "É injusto!", disse. Lembrou o "pântano" em que "Guterres colocou o País" e o pouco tempo que teve para resolver tamanho buraco.

O eloquente

Chega de Mercedes, atrasado. Pedro Santana Lopes sobe apressado as escadas, seguido pelo fiel Pedro Pinto e por Luís Montenegro, porta-voz da sua campanha. O modesto primeiro andar da secção A de Benfica do PSD, vizinho de uma "Estética, pedicure e manicure", está apinhado à sua espera. Há, aliás, um companheiro mais idoso, Constantino Vouga de seu nome, preparado para o criticar caso volte a evocar, em vão, o nome de Sá Carneiro como se fosse seu herdeiro político. "Não gosto que ele diga isso! Sá Carneiro não cultivava a personalidade, muito menos delfins!"

Mas, desta feita, Santana esqueceu Sá Carneiro e dessa herança só cultiva no discurso o "PPD/PSD" de sempre. Mantém também a eloquência que o caracteriza na defesa de que merece mais uma oportunidade, por tudo o que fez e não o deixaram fazer. Lembra à plateia heterogénea que ganhou duas câmaras, a de Figueira e a de Lisboa, quando outras sumidades do partido assobiaram para o ar. Todos os restantes argumentos são pensados para atingir a candidatura de Manuela Ferreira Leite.

Naquela secção, os militantes laranjas estão pouco preocupados com as miudezas internas, querem respostas para problemas reais. O desemprego, a pobreza, a reforma da função pública. Até que um militante conservador, Eduíno, dispara uma rajada de seis perguntas sobre costumes, colocando meia a sala a rir e a outra meia estupefacta com os termo da primeira questão: "Tolera casamentos entre invertidos?" Santana, sem se desmanchar, diz reconhecer os direitos das "uniões de facto entre pessoas do mesmo sexo".

O comunicativo

Também atrasado, Pedro Passos Coelho chega a pé à secção A de Benfica um dia depois de Santana ali ter estado. O modesto 1º andar parece maior, porque está muito mais vazio. Vasco Rato, que se afastou do PDS durante a direcção de Marques Mendes, aguarda o candidato. Outros rostos repetem-se nas cadeiras alinhadas para o ouvir. E Eduíno também lá com a mesma rajada de perguntas, apenas com uma nuance introdutória: "Pedro és o mais simpático!" Pedro, que o trata por "tu", acaba por o irritar quando se recusa a dar "falsas lições de moral" sobre costumes.

A sessão é longa. O antigo líder da JSD responde a todas as perguntas demoradamente. Fora da sala, alguns jovens convivem no bar, instalado naquela que é uma das maiores secções do PSD. De vez em quando espreitam o que diz aquele Pedro. E ele defende um Estado mais liberal e ao serviço dos mais desfavorecidos.|
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