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ORÇAMENTOS BARALHAM IDENTIDADE DE ESCOLAS
ANTÓNIO TADEIA
Há frases que, de tão certeiras, acabam por ferir como punhais. Foi o caso da afirmação de Jorge Nuno Pinto da Costa, em entrevista à Visão, quando disse que do Benfica e do Sporting só queria um futebolista: João Moutinho, porque era "um jogador à Porto". Tudo no fecho de uma época em que as trivelas e os truques de Quaresma, mesmo tendo sido mais uma vez absolutamente decisivos na Liga, continuam longe de convencer o tribunal que se mudou das Antas para o Dragão e que lhes responde com assobios. A constatação dos dois factos permite concluir que há, de facto, jogadores "à Porto", chamemos-lhes jogadores de equipa, batalhadores, com capacidade de sofrimento ou o que quer que seja. Como há jogadores "à Sporting", mais dados ao individualismo, ao brilho no um para um. As bancadas dos dois clubes continuam presas à tradição mas, de Postiga a Vieirinha, cada vez mais o FC Porto só forma jogadores "à Sporting". E no Sporting, di-lo o próprio Pinto da Costa, começam a aparecer jogadores "à Porto".
Jaime Pacheco, treinador do Boavista que fez a formação como futebolista no FC Porto mas que em 1984 se mudou para Alvalade, não tem dúvidas: há mesmo jogadores à FC Porto. "É uma questão cultural. Tem a ver com o sítio onde se nasce, com o local onde se cresce, com as pessoas com quem nos relacionamos, com as dificuldades que temos de enfrentar", alega Pacheco, assumindo com orgulho o estatuto de ex-jogador "à Porto" antes de se explicar. "Não são só os jogadores do FC Porto. O próprio jogador do Norte é diferente do do Sul. E isso vê-se em tudo. Na forma como se prepara para treinar, na forma de se equipar, na reacção à derrota. O jogador do Norte é mais jogador de equipa, o do Sul é mais individualista". Encontrado o modelo, chega a altura de o exemplificar com histórias de vida. "Quando cheguei ao Sporting, vi coisas de abismar. Vi colegas meus que nas manhãs dos jogos de um torneio, iam jogar ténis. Isso para mim era impensável, a concentração era toda posta no jogo. Como vi outros que, mesmo perdendo, no final iam à discoteca, quando a nós nem o jantar nos sabia bem", recorda ainda Pacheco, que chegou ao Sporting com Sousa, enquanto Futre fazia o caminho de Alvalade para as Antas, ali bebendo a mística portista.
"Jogadores à Porto são o Derlei, o João Moutinho, como era o João Pinto", diz Pacheco. "O Nuno Gomes também tinha isso, nunca desistia de um lance, mas com o tempo foi perdendo essa característica". E à Sporting? "Era por exemplo o Litos, que até é do Norte, mas era um jogador mais fidalgo", sustenta Pacheco. E Quaresma? "Sim, o Quaresma também. Mas atenção que não estou de forma alguma a questionar a qualidade deles", afirma. Ora, se olharmos para os jogadores formados pelos dois clubes na actual I Liga, encontra-se de tudo um pouco, mas não deixa de ser emblemático que os jogadores "à Porto" saídos das camadas jovens dos azuis-e-brancos sejam sobretudo os que não tiveram espaço de afirmação no clube e saíram em busca de uma vida melhor noutros locais. É o caso de Bruno Alves, hoje titular dos tricampeões nacionais mas que teve de amargar no Farense, no V. Guimarães ou no AEK Atenas. Ou de Tonel, que não chegou sequer à equipa principal do FC Porto e que, antes de se afirmar no Sporting, ganhou tarimba no Marítimo e na Académica. Em contrapartida, todos aqueles de quem mais se espera têm falhado na progressão e demoram a chegar aos píncaros.
São os casos de Ivanildo ou Vieirinha, melhor jogador da selecção de sub-17 anos que se sagrou campeã europeia, uma equipa onde João Moutinho, por exemplo, era suplente, mas que entretanto alternou períodos de baixa utilização no FC Porto com passagens pelo Marco e pelo Leixões. Será Vieirinha um jogador à Sporting. O próprio diz que não. "O jogador 'à Porto' não é só um jogador com elevada capacidade de sofrimento. A ideia é aliar os dois tipos de características: nunca desistir de um lance, mas ao mesmo tempo ter a qualidade técnica que permita decidir jogos. O Quaresma é exemplo disso. O Postiga também", diz o extremo que esta época alinhou pelo Leixões mas viu a época afectada por algumas lesões. Ora Vieirinha fala precisamente de um jogador formado pelo Sporting, que é frequentemente assobiado no Dragão, e noutro cuja relação de amor com os adeptos portistas só é suplantada pela falta de paciência que para ele têm os treinadores e que já o levou a ser dispensado por Mourinho, Adriaanse e Jesualdo Ferreira. Em contrapartida, para encontrar jogadores portugueses "à Porto" no plantel dos tricampeões nacionais é preciso ir buscar elementos recrutados nas camadas jovens do Boavista - Pedro Emanuel e Raul Meireles, por exemplo. Estará então o jogador do FC Porto a afidalgar-se, a ceder às tentações da vida fácil?
"Não tem só a ver com isso", defende Jaime Pacheco. "A formação do FC Porto mudou muito desde que o clube perdeu o João Pinto [ndr: para a equipa técnica do plantel principal], o Inácio, o Costa Soares, o Feliciano. Os treinadores foram mudando, foi-se perdendo alguma da mística e o FC Porto acaba por pagar por isso", completa o técnico do Boavista, que ainda veste a camisola azul-e-branca em jogos de veteranos com outros jogadores "à Porto" do seu tempo.
José Couceiro, que foi director desportivo do Sporting e treinador do FC Porto, contudo, tem uma explicação mais política para o fenómeno. "O que se passa é que o Sporting lança mais jogadores da formação do que o FC Porto, porque a isso se obriga pela contenção orçamental. E é isso que permite o crescimento competitivo dos jogadores da formação do Sporting, ao mesmo tempo que trava a ascensão dos que saem das camadas jovens do FC Porto", diz o técnico que também já foi seleccionador de sub-21. "A questão tem a ver com o que colocamos os miúdos a fazer entre os 18 e os 21 anos, três anos absolutamente decisivos para o seu crescimento competitivo. O João Moutinho, que é um jogador extraordinário, era suplente do Paulo Machado na selecção de sub-17 que foi campeã europeia em Viseu. O que acontece é que o João teve a oportunidade de continuar a competir e até o fez na equipa principal do Sporting, o que lhe permitiu evoluir muito, ao passo que o Paulo, que tinha uma concorrência extraordinária, passou largos períodos a jogar menos do que o aconselhável", sintetiza Couceiro.
Em suma, a verdade inicial continua válida: se falta o dinheiro, se as dificuldades são maiores, aguça-se o engenho e evolui-se. A diferença é que o FC Porto tem tido mais dinheiro para gastar do que o Sporting. E em resultado disso em Alvalade começaram a formar-se jogadores "à Porto". |
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