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O QUE FALTA PARA A NOVA ERA
António Tadeia
As sentenças decretadas pela Comissão Disciplinar da Liga no final da semana passada foram naturalmente acolhidas de forma diferente entre penalizados, que contestam a forma de fazer justiça e denunciam tentativas de fazer regressar o futebol ao tempo da "outra senhora", e presumíveis neutrais, que aplaudem a entrada numa nova era, a era de um futebol regenerado. Com o devido respeito, acho que nem uns nem outros têm razão. A acção da Comissão Disciplinar é um passo no sentido correcto, mas em si não chega para consumar a regeneração do futebol nacional.
Os contestatários baseiam a sua argumentação em três factores, nenhum verdadeiramente admissível. Primeiro, no visível orgulho com que Ricardo Costa, presidente da CD da Liga, anunciou os castigos. É verdade que houve no acto algum excesso de vaidade misturado com a inevitável satisfação do dever cumprido, mas não podemos deixar que a forma afecte o conteúdo - não será por o homem se apresentar impecavelmente vestido e penteado ou fazer alguns auto-elogios entre suspensões e multas que estes são mais ou menos acertados e importantes. Depois, queixam-se os contestatários que a justiça desportiva se baseou na investigação da equipa de Maria José Morgado - que conotam com os interesses do Benfica - mas adiantou-se a esta nas decisões. Contudo, aqui tem razão Ricardo Costa: entre a justiça desportiva e a investigação criminal deve haver cooperação, mas não seguidismo. Se, por um lado, há uma contradição - como podem contestar a Procuradoria, mas depois exigir que a justiça desportiva a siga cegamente? - por outro, está a pôr-se em causa todo o princípio da justiça desportiva, cujos prazos não se coadunam com o andamento dos tribunais.
O terceiro argumento é o mais válido. Alegam os agora castigados que o futebol não está a entrar numa nova era, que está sim a regressar à antiga, ao tempo em que eram Sporting ou Benfica a dominar os bastidores perante a complacência geral do País. Pelo que leio e me contam, presumo que antes do 25 de Abril esse domínio lisboeta tenha mesmo acontecido, embora o bom-senso me mande ser um pouco mais condescendente com os que não se revoltavam - a urgência talvez fosse remediar o País antes de mexer no futebol. Contudo, há nesta argumentação um perigo real. As sentenças da Comissão Disciplinar da Liga podem ser consideradas um passo em frente, porquanto atingem dirigentes históricos, quase com o estatuto de intocáveis, acabando assim com a ideia de que a alguns tudo é permitido. Mas, apesar de darem o exemplo, em si próprias estas sentenças não chegam para decretar a entrada do futebol na regeneração. Aliás, se não forem rapidamente complementadas com outras acções, podem mesmo levar à substituição de uns caciques por outros.
É preciso identificar os principais problemas do futebol nacional. São eles, acima de todos, a distribuição nada "democrática" de receitas, seguida pela eternização de algumas figuras em lugares de poder e pelo facilitismo pelo qual os clubes enveredam sempre na altura de tomar decisões importantes. Para o futebol entrar de facto numa nova era seria necessário que os direitos de televisão fossem centralizados, negociados por uma única entidade, e que as suas receitas fossem depois distribuídas de forma mais igual por todos, dessa forma aumentando as condições para a competitividade. Depois, é necessária a limitação de mandatos em lugares de poder, para impedir a eternização de figuras como a de Valentim Loureiro, espécie de dono do futebol nacional, que acha natural telefonar aos árbitros com, como ele próprio diz, "conversas de chacha". Por fim, é preciso que a Liga seja mais rigorosa no licenciamento dos clubes que participam nas suas provas, exigindo-lhes garantias bancárias de que vão pagar ordenados, punindo as faltas de forma severa e não abrindo a competição a clubes sem base de sustentação social, sem adeptos que garantam um mínimo de assistência aos seus jogos.
O problema aqui é que a Liga é um prolongamento dos clubes. Ora, serão os clubes capazes de aprovar estas medidas? Na "Grande Entrevista" à RTP, Hermínio Loureiro disse crer que os clubes vão mostrar ao País que faz mal em deles desconfiar, mas temo que nessa altura o presidente da Liga estivesse a confundir desejos com convicções ou até a provocar os defensores do statu quo, a tentar levá-los à acção. Porque, conforme ele mesmo disse pelo menos três vezes, esses clubes votaram mais na lista de Valentim para a assembleia geral do que na dele próprio para a presidência da Liga. E isto é um sinal.|
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