![]() |
![]() |
|||||||||||||||||||||||||||
![]() |
|
|||||||||||||||||||||||||||
![]() |
![]() |
|||||||||||||||||||||||||||
![]() |
||||||||||||||||||||||||||||
|
|
|
|
Tyler Bowe: um actor açoriano em Hollywood
NÉLIA ALVES, em Fall River Victor Nuno Botelho. É o nome de baptismo de um açoriano que começou a ganhar fama como intérprete da série televisiva 'Murphy Brown', que lhe abriu as portas da meca do cinema. Chegou a Los Angeles com 40 dólares e o sonho de ser actor Tyler Bowe, filho de uma família da costa sul de Fall River - a cidade dos tea-res, como é conhecida entre os ame- ricanos -, interpretou durante mais de dez anos o papel de Dave na série Murphy Brown. Era aquele rapaz loiro sempre bem vestido, de fatiota a condizer, a quem Candice Bergen descarregava a sua fúria semana após semana. Esta série, foi o primeiro passo de Tyler para chegar a Hollywood, permitindo--lhe o que muitos procuram quando lá chegam: um trabalho. Mas Tyler nem sempre foi Tyler Bowe. Na verdade o rapaz de Fall River também não nasceu em Fall River. O seu nome completo é Victor Nuno Botelho e deve constar dos registos paroquiais da Igreja de São José, na bela cidade de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, como católico baptizado. Na primária, o seu mestre foi o professor Remígio, de quem guarda boas recordações. Filho de Nuno Botelho, natural das Furnas, e de Odília Botelho, da Lomba da Maia, Victor emigrou para os Estados Unidos com apenas dez anos. Os pais emigraram primeiro sem a família e só mais tarde ele e a irmã se lhes juntaram. "Com a nossa chegada, os nossos pais compraram um pequeno apartamento em Fall River e tiveram de trabalhar nas fábricas, tal como muitos outros emigrantes vindos naquela altura", recorda ao DN gente. A mãe era professora nos Açores mas para exercer a profissão na nova nação teria de obter as respectivas equivalências. Então houve uma altura em que na família Botelho todos iam à escola e trabalhavam para ajudar nas despesas da casa. "O meu trabalho era como moço de recados de uma mercearia. Fazia 12 dólares por semana e dava-os todos a minha mãe. Ela guardava quatro e foi com essas poupanças que comprei a minha primeira câmara de filmar", explica. Munido dessa câmara, Victor filmava os amigos em cenários que ele criava, drama, teatro, magia e acção. Na cidade de Fall River frequentou o liceu e depois o Boston State College. Foi assistente de professor numa escola infantil, onde conheceu uma criança que o marcou pela sua inteligência e dinamismo. Chamava-se Tyler e tinha olhos azuis e cabelo loiro. Quando Victor teve de escolher um nome para a carreira lembrou-se do miúdo Tyler - o Bowe vem do apelido Botelho. Ainda com esse professor aprendeu música e formou, com um grupo de amigos, aquele que viria a ser o seu primeiro conjunto musical, The Moderns. Seguiram-se mais dois. "Foram quatro anos a cantar e a tocar em toda a Nova Inglaterra", lembra. Os filmes sempre povoaram a imaginação de Tyler. Desde a Branca de Neve e A Gata Borralheira ao seu favorito, Música no Coração, tudo o transportava para esse mundo de magia de Hollywood. "Já em criança, nos Açores, eu me sentia atraído pelo cinema. Hollywood estava sempre no meu pensamento. Ia ver todos os filmes ao Cine Popular da Fajã de Cima com o meu tio Manuel", recorda, a sorrir, pelo efeito das lembranças já tão distantes. Foi assim que em 1984 Tyler decidiu conduzir o seu velho carro da costa leste até à meca do cinema. O emigrante açoriano de Fall River encheu-se de coragem: quase não tinha dinheiro. Depois de cinco dias de viagem, chega a Los Angeles apenas com duas notas de vinte dólares no bolso e o sonho de sempre: ser actor. "Não tinha lugar para dormir e por isso tive de viver no meu carro durante duas semanas enquanto procurava emprego." O actor James Brolin, então marido de Barbra Streisand, foi quem primeiro lhe deu a mão, oferecendo-lhe trabalho como assistente na Paramount Recording Studios. Tyler não se fez rogado: aceitou a oferta e as dormidas no carro com matrícula de Massachusetts numa cidade enorme como Los Angeles mais não são do que recordações de que um dia se orgulhará de contar aos netos. Com Elizabeth Taylor Na série Murphy Brown teve oportunidade de trabalhar com actores de renome da Sétima Arte. Elizabeth Taylor e Clint Eastwood, por exemplo. Cada episódio era filmado semanalmente. Na sexta-feira anterior, os textos eram distribuídos para serem lidos e decorados. "Eu treinava frente ao espelho", realça. Às terças-feiras, os actores iam para o estúdio, onde começavam pela leitura e correcção do guião, seguindo-se o primeiro ensaio da semana. Com três câmaras a filmar a cena, cada actor tinha de memorizar a sua posição e a consequente movimentação. Na quinta-feira havia novamente ensaio e a sexta-feira era o grande dia. "Começávamos às dez da manhã com ensaios até à hora do espectáculo, interrompendo só para as refeições", explica. Murphy Brown era uma série gravada ao vivo: depois de a audiência escolhida para aquela noite estar devidamente sentada, o pano subia e o espectáculo tinha início. "Sentia sempre uns nervos no estômago quando ouvia a ordem de acção", recorda. Ainda a participar na sitcom, Tyler vê o seu sonho realizado: participar numa longa-metragem. Foi num desses filmes chamados de "familiares" porque aparecem sem bolinha vermelha e baseava-se na música de Sandy Luppur. Fazia o papel de dançarino e o pequeno Fiat que trouxe de Fall River também entrava na cena. A partir daqui vieram muitos outros: até à data, trabalhou como actor em cerca de 30 películas e séries televisivas. Numa dessas séries, Tyler pôde até falar português. Foi em The West Wing, produzida pela NBC em horário nobre para a televisão americana [e também muito popular em Portugal, sob o título Os Homens do Presidente], com Martin Sheen e Rob Lowe à frente do elenco. O enredo girava à volta dos bastidores da Casa Branca, e a dada altura fazia falta alguém que falasse o idioma de Camões. "Nunca até ali tinha tido a oportunidade de interpretar o papel de uma personagem que falasse a minha língua", diz o actor com orgulho. Tyler fez o papel de cozinheiro, o senhor Gomes, e praticou a saudosa língua portuguesa graças à visita fictícia do presidente da Indonésia à poderosa Casa Branca. Ora o que a Warner Brothers não sabia era que na Indonésia se fala tudo menos português. "E não foi possível convencê-los do contrário, pelo que interpretei o papel que me colocaram nas mãos", lembra com um sorriso divertido. No filme Bring Him Home, com Ed Asner, realizado em 2000, Tyler aparece com outra roupagem, mais sério e pela primeira vez sem fazer o papel de mau. "Eu era o padrasto da personagem principal, um rapaz que procurava o seu cão desaparecido, e o Ed interpretava o avô." O filme passou em várias televisões e foi um sucesso. Tyler confessa que não tem preferência por esta ou aquela personagem. Interpreta todos os papéis que lhe dão e até já fez de membro da Gestapo num filme sobre a II Guerra Mundial. O importante é ver-se na tela, mesmo quando a representação não é a melhor. "O coração bate quando sabemos que aquele vai ser o nosso momento e rezamos para que esteja bem", exclama. O chamado "beijo técnico" não existe, confessa-nos Tyler Bowe. "Ficamos sempre nervosos quando vamos beijar pela primeira vez a actriz que contracena connosco, mesmo com a parafrenália de meios técnicos e humanos à nossa volta", explica. O importante mesmo é não ter mau hálito. A solução é mascar pastilha elástica", acrescenta. Mas nem tudo são rosas na cidade do cinema. Os rumores que correm por Hollywood em relação a favores sexuais e drogas para se obter determinados papéis fazem também parte da "cena". O nepotismo é algo muito evidente nessa indústria, conforme explica Tyler. As festas de fim-de-semana, e o "se me coçares as costas eu coço-te as tuas, fazem parte da vida dos actores. "Mas as coisas estão a mudar. Actores, cantores, bailarinos, escritores e realizadores têm hoje protecção em termos de assistência social e leis de trabalho, o que não acontecia antigamente", refere. O trabalho de empregado de mesa é quase certo para quem se aventura na arte da representação. O calendário das audiências não se compadece com horários de trabalho das nove às cinco da tarde, e por isso a solução é mesmo a labuta nocturna para pagar as contas do mês. Mas animem-se os principiantes: actores como George Clooney e Jennifer Aniston são apenas alguns exemplos de quem começou ali numa qualquer mesa de um qualquer restaurante. Portugueses em Hollywood não são assim tantos, mas Tyler não deixa de destacar Joaquim de Almeida e Tonny Lema. "Também aparecem alguns jovens portugueses que vêm estudar representação para os Estados Unidos e isso é bom sinal", aponta. Sempre que pode dá uma saltada a Fall River para rever a família e os amigos. A máquina fotográfica, sempre preparada, regista esses momentos que depois lhe farão companhia nas noites solitárias de Los Angels. "Quando venho a Fall River mato as saudades da comida portuguesa e acabo por voltar com mais uns quilinhos", brinca. Ao que se sabe, Tyler continua solteiro - para alegria das solteiras. A mãe, Odília, continua a acreditar que um dia ele "assentará" quando conhecer a portuguesa certa e que goste do seu trabalho. Tendo passado já a barreira dos quarenta, Tyler Bowe ou Victor Botelho ostenta uma jovialidade de adolescente e continua muito empenhado na sua profissão. Decorrido mais de um quarto de século a trabalhar na Sétima Arte, o actor nascido nos Açores faz um balanço positivo da carreira, que não termina por aqui. Com um filme sobre a emigração portuguesa, em que é produtor e actor, e a produção de um vídeo musical em mãos, este açoriano faz questão de não esquecer as suas raízes. E é com saudade que lembra sempre a terra que o viu nascer. | |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
HOMEPAGE | ![]() |
DN NEGÓCIOS | ![]() |
FICHA TÉCNICA | ![]() |
CONTACTO | ![]() |
CARTÃO GN | ![]() |
CLASSIFICADOS | ![]() |
|
![]() |
![]() |
|
|||||||||||