Sábado, 17 de Maio de 2008
Edição Papel
Director: João Marcelino
Directores adjuntos: Filomena Martins,
Rui Hortelão
Subdirectora: Catarina Carvalho
Lisboa
17.05.08
dn.homepage » dn.dngente

Revoada de crianças vítimas da guerra


FERNANDO MADAÍL
Férias. Em 1950, centenas de órfãos que viviam em campos de refugiados na Áustria vinham passar mais uma temporada a Portugal. Aquelas crianças austríacas tinham um "aspecto miserável" e a "saúde abalada". Até parecia que em Portugal não havia imensos miúdos pobres nas mesmas condições
Lisboa devia surgir como um paraíso para aquelas crianças austríacas, checas, polacas, jugoslavas, gregas, romenas e húngaras órfãs devido à II Guerra Mundial e "que viviam em campos de refugiados, na Áustria", "levadas [para lá] por terem sido encontradas abandonadas nas estradas durante a fuga das famílias ou juntas dos cadáveres dos pais, mortos pela metralha dos exércitos em luta".

"Mais uma revoada de crianças estrangeiras, vítimas inocentes da guerra, chegaram ontem ao Tejo, no [barco] Mouzinho, para serem confiadas à protecção e carinho de famílias portuguesas", noticiava o DN de 3 de Maio de 1950. "São 278 meninas e 894 rapazes, de 5 a 13 anos, com os quais se completa o número de 5 500 crianças que, por turnos, durante três anos e meio, vieram gozar férias no nosso país por iniciativa da Cáritas (...)."

A célebre frase que Churchill proferira em Fulton - "De Stettin, no Báltico, até Trieste, no Adriático, baixou uma cortina de ferro através do continente" - permitira a sobrevivência do regime salazarista. Portugal tinha sido um dos fundadores da NATO e da Organização Mundial de Saúde, aderindo também ao que resultou do Plano Marshall - a Organização Europeia de Cooperação Económica.

"Das [crianças] que ontem chegaram a Lisboa, 470 já estiveram em Portugal e voltaram agora a convite dos seus protectores." Algumas, além de "mostrarem que não esqueceram a língua aqui aprendida", "conservam aspecto saudável e apresentam-se ainda com o vestuário que lhes foi oferecido pelas suas famílias adoptivas". Mas "as que vêm pela primeira vez, apresentam, de um modo geral, aspecto miserável e de saúde abalada". À primeira vista, poderia parecer que nada disto sucedia por cá. E, no entanto, a fome no Alentejo era tão evidente que, em Janeiro, esta modalidade de confiar crianças em más condições a famílias abastadas tinha contemplado uma centena de filhos de pobres dos distritos de Beja, Évora e Portalegre.

Na reportagem sobre "este turno, o último que estagiará entre nós", acrescentava-se que "estes infelizes apresentam ainda pior aspecto do que as outras [crianças austríacas], tanto de roupas como de saúde".

"São um tanto ariscos, desconfiados e parecem olhar com ar tímido quem deles se aproxima. Dir-se-ia que o sofrimento, já tão grande em tão pequenas idades, não lhes permite acreditar que ainda haja corações nos seres humanos." Após o "desembarque dos pequenos passageiros" - "centenas de famílias aguardavam a chegada dos seus pupilos" e "gente do Norte veio em automóveis " -, relatavam-se os "sentimentos afectivos" a bordo do Mouzinho.

"Aconteceu ver-se um marinheiro, um moço de convés, um cozinheiro e oficiais e senhoras acompanhantes em embaraços com as maiores manifestações de ternura. De facto, cada um dos eleitos tomou à sua conta, nas horas de folga, as simpáticas crianças. Por exemplo, o médico de bordo , sr. dr. Oliveira Machado, foi sempre acompanhado por uma petiza, que não se deitava sem um abraço e um beijo do seu amigo. Outro - um marinheiro - prodigalizou a uma linda menina afectos de pai. Como estas cenas outras se deram."

Em termos de propaganda - no ano seguinte ao da separação das Alemanhas -, nada se comparava ao caso da "linda menina de nove anos, Brigitte Mrwka, filha de um oficial do exército austríaco [nazi, após a anexação hitleriana da Áustria, em 1938], que esteve prisioneiro quatro anos em campos de concentração da Rússia". Era "portadora de uma carta de seu pai para a família portuguesa que, anteriormente, a tivera aos seus cuidados. Nessa carta, onde manifestava os seus agradecimentos pela amizade e protecção dispensada à filha, o antigo oficial afirmava que no seu espírito renascia a convicção de que a solidariedade humana não desaparecera e que nem tudo era ódio e egoísmo. Portugal - acrescentava - era um exemplo bem frisante dos mais nobres sentimentos". |
HOMEPAGE DN NEGÓCIOS FICHA TÉCNICA CONTACTO CARTÃO GN CLASSIFICADOS