Ramón. Aos 14 anos, agarra na pá, peneirando o sal por trás de uma máscara negra. No Noroeste da Argentina, a 3350 metros de altura, na terceira maior salina do mundo, deixou a escola e ganha o equivalente a cento e poucos euros por mês. E está contente
A beleza pode ser de uma crueldade tremenda. O branco miragem, fantasia, ilusão, estendido por mais de 12 mil hectares de um vale plano (e pleno) de sal que se abre na aridez da Puna andina é digno da contemplação de um poema, não fosse o ascetismo de quem trabalha que são as terceiras maiores salinas do mundo ter pouco de busca de fins considerados superiores: é pura sobrevivência.
Em Salinas Grandes, no Noroeste da Argentina, na rota que leva ao Chile e ao deserto do Atacama, numa estrada que sobe a mais de quatro mil metros, os homens têm cara de mapa com os relevos da paisagem.
Uma atmosfera de ar rarefeito, onde o céu azul tem algo de ostensivo, os pés apenas pisam o branco dividido em hexágonos quase perfeitos pela natureza e os homens são dolentes e passam a maior parte do tempo escondidos atrás de máscaras negras e óculos escuros, opção que nada tem a ver com a timidez que lhes é inata.
O sol reflectido pelo sal vai enegrecendo e endurecendo a pele. Afecta a vista. Pode cegar. Ar rarefeito ou a solidão imposta pela paisagem (se calhar, a fome), vão comendo as palavras e os homens pouco falam entre si. As folhas de coca a um canto da boca vão fazendo a vez da comida. Diz-se que diminuem o apetite e dão resistência. Se calhar, ajudam a esquecer o básico da existência.
Ramón tem 14 anos, trocou a escola pela pá com que vai atirando o sal através de uma grande peneira há apenas dois meses. Dão-lhe cem pesos por semana, o equivalente a cento e poucos euros ao fim do mês, o que o deixa satisfeito. "Gosto de trabalhar aqui", diz, numas palavras arrancadas a ferros, porque nas terras altas o discurso cansa e o silêncio impera.
Tal como os restantes trabalhadores, Ramón é de Pozo Colorado, uma aldeia situada a oito quilómetros das salinas. Pergunto-lhe pelos óculos, se sabe que os deve usar, responde que sim, quanto à razão por que os não tem, limita-se a encolher os ombros, embora não seja difícil perceber que uma máscara preta é apenas um tecido velho com dois buracos. Um par de óculos é mais fácil de improvisar.
Na época das chuvas, a salina fica coberta com uns 30 cm de água. Desaparecida a água da superfície, os homens abrem no solo piletas (tanques, piscinas) rectangulares de onde retiram o sal. Rectângulos cuja água-espelho reflecte o céu num azul-turquesa encantatório. Como se o resto do cenário ainda precisasse de ajuda!
Rodrigo tem 26 anos e aparenta pelo menos mais dez, conta-nos que os homens trabalham todos para uma cooperativa. Ao todo, são 35 e vendem a tonelada do sal a 15 pesos (uns quatro euros). (O sal grosso mais barato vende-se em Portugal nos supermercados ao equivalente a 190 euros a tonelada.) Para equilibrar o orçamento, os homens montaram bancas de vendas de artesanato no meio do branco, onde vendem lamas, vicunhas, alpacas e figuras antropomórficas feitas de sal ou baixos-relevos em pedra lascada com símbolos da cultura indígena, reflexos de um animismo que a agressiva expansão da Igreja Católica não conseguiu extirpar.
Damos boleia a Rodrigo, a mulher, Mariela, e à filha, Nádia, que as curvas da descida em direcção a Purmamarca acabarão por deixar maldisposta e rabugenta. Isso, ou as horas que esperaram pelo autocarro na berma da Estrada 52. Desta vez, fazem os 76 quilómetros para visitar familiares que vivem na cidade do Cerro das Sete Cores. Outras vezes, o pretexto é a mais urgente ida ao médico ou ao hospital. Pozo Colorado tem um centro de saúde, mas médico só uma vez por mês. Quando há urgências, é preciso fazê-las descer a montanha. Por exemplo, ninguém nasce em Pozo Colorado. Um mês ou 15 dias antes do parto, a grávida instala-se em Maimara, na Quebrada de Humahuaca (património natural da humanidade), onde o clima é ameno e existem instalações médicas que garantem os cuidados de saúde. Mas assim que o bebé nasce, sobe a montanha para poder crescer com os pulmões bem abertos.|