François Ozon. 'Angel - Encanto e Sedução', o seu novo filme, acaba de se estrear entre nós. Oportunidade para traçar um esboço biográfico de um dos mais originais, ousados e internacionais cineastas franceses da actualidade, cuja obra se tem distinguido por um forte sentido de liberdade
A paixão de François Ozon pelo cinema remonta à infância, quando assistia, fascinado, às projecções caseiras dos filmes que o seu pai fazia em Super 8, e nos quais documentava cenas da vida familiar ou as suas viagens à Índia. Filmes esses que o marcaram profundamente, e que o fizeram compreender que podia contar uma história e transmitir sensações e emoções com escassos meios. Entre os 18 e 22 anos, realizou uma trintena de curtas-metragens em Super 8, recrutando a família, os amigos e até os seus amores para protagonizá-las. Assim aprendeu a contar histórias sem palavras e com recursos mínimos, iniciando-se desse modo nas angústias e alegrias da realização.
O percurso de François Ozon é exemplar. Nascido em Paris a 15 de Novembro de 1967, estudou cinema na Sorbonne, onde obteve o grau de mestre, e realização na prestigiada escola de cinema La Femis, aí se revelando um aluno brilhante, sob tutela de Eric Rohmer e de Jean Douchet (crítico dos Cahiers du Cinéma). Depois de testar o seu talento com um impressionante conjunto de curtas-metragens (14 no total), entre as mais elogiadas estando Action Vérité, La Petite Mort e Une Robe d'Eté, onde fez experiências em Super 8, vídeo, 16 e 35 mm, realizou ainda a média-metragem Regarde la Mer, antes de se estrear, em 1998, na longa-metragem com Sitcom, um exercício subversivo e trangressivo que pretende provocar as bem-pensantes consciências da bonne societé de classe média.
De resto, toda a obra de Ozon tem um valor profundamente liberal e independente. Ele é o cineasta sem tabus, que se debruça sobre questões como a identidade, o género ou a sexualidade rejeitando sempre visões estreitas e rígidas. Os seus filmes nunca reflectem de forma binária as tradicionais dicotomias mas-culino/feminino ou heterosse-xual/homossexual, representando sempre estes conceitos de modo fluido, ambíguo, livre. E apesar de o seu cinema se situar maioritariamente em território queer (os críticos costumam incluir a sua obra no âmbito do New Queer Cinema), Ozon não gosta especialmente que rotulem a sua sexualidade. Aliás, se há coisa que o realizador francês se esforça por descolar das suas personagens e dos temas que aborda (condensáveis na tríade sexo/amor/morte) são precisamente as etiquetas que reduzem a meros esboços caricaturais as complexidades do género humano.
Oriundo de uma família burguesa e católica, Ozon sempre admitiu que, em última instância, fazia filmes contra os seus pais. Considerado por muitos o enfant terrible da nova geração do cinema francês, é visto por outros como uma criança mimada que afirma uma rebeldia comprazida num certo sadismo da verdade que pretende provocar a moral instituída e as emolientes ilusões das massas. Simultaneamente sensual, mórbida e lúcida, a obra do autor de O Tempo Que Resta constitui um retrato fiel, às vezes violento e cru, outras cândido e desarmante, de uma geração hedonista, depressiva, carnalmente desassossegada - uma geração para quem a identidade é uma incógnita.
A qualidade estética e narrativa dos filmes de Ozon reflecte bem a sua ardente cinefilia. Fassbinder, Buñuel, Truffaut ou Ophüls são algumas das suas referências, mas aprecia também contemporâneos como John Waters, Pedro Almodóvar, Larry Clark, Brian DePalma, Tsai Ming-Liang, David Cronenberg, Bruno Dumont ou os irmãos Dardenne. Costuma ser visto como um grande director de actrizes. Ressuscitou a carreira de Charlotte Rampling (protagonista de Sob a Areia e Swimming Pool), fez de Ludivine Sagnier a sua musa, e conseguiu reunir em 8 Mulheres o crème de la crème das actrizes francesas (Danielle Darrieux, Catherine Deneuve, Fanny Ardant, Isabelle Huppert, Emmanuelle Béart, entre outras).
Autor prolífico (faz uma média de um filme por ano), François Ozon é um dos mais originais, desafiantes e bem sucedidos cineastas franceses da actualidade.
Um cineasta anti-conformista e anti-burguês cujos filmes revelam sempre um particular gosto pelo risco, assim como uma extraordinária capacidade de surpreender e mesmo aturdir o espectador.
A sua obra é uma espécie de anfetamina que nos estimula o pensamento, induzindo-o a uma salutar e apaixonante liberdade.|