Sábado, 17 de Maio de 2008
Edição Papel
Director: João Marcelino
Directores adjuntos: Filomena Martins,
Rui Hortelão
Subdirectora: Catarina Carvalho
Lisboa
17.05.08
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No intervalo entre a arte e a vida


NUNO CRESPO
Robert Rauschenberg. Na sua primeira exposição, em Nova Iorque, não vendeu

um só quadro. Mas viria a tornar-se um dos grandes nomes da 'pop art'. Morreu agora, aos 82 anos. A sua última grande mostra foi no Museu de Serralves, no Porto

No intervalo entre a arte e a vida
Morreu segunda feira, aos 82 anos, um dos maiores artistas americanos. Várias vezes declarou que a sua ambição era preencher o intervalo entre a arte e a vida. E foi sobre o signo da experiência dos limites e da abolição da fronteira entre diferentes disciplinas que Robert Rauschenberg fez todo o seu trabalho.

Em todas as coisas que fez, produziu e criou, levou de tal modo aos limites os meios que usava que acabou por reinventar os conceitos de arte e de vida. Para João Fernandes, director do Museu de Serralves, no Porto, que acolheu a última grande exposição do artista, "com Rauschenberg aprendemos a reinventar a arte e a vida. Será esse o maior legado com que cada museu perpetuará o seu trabalho e a sua memória".

Por ironia do destino, em 2002, depois de um ataque cardíaco, ficou com o lado direito do corpo paralisado e teve de aprender a trabalhar com a mão esquerda, mantendo uma enorme produção. Esta capacidade de renovação, de integração do novo, da não exclusão, mas de tudo integrar como elemento criativo é a que melhor caracteriza o seu olhar.

Milton Ernest Rauschenberg nasceu a 22 de Outubro de 1925, na mesma cidade do Texas em que nasceu Janis Joplin. Depois mudou o nome para Bob e, mais tarde, para Robert Rauschenberg. Estudou Farmacologia na Universidade do Texas por insistência da família (o avô, imigrante alemão, era médico) e viu as primeiras pinturas da sua vida quando aos 18 anos, na II Guerra Mundial, era soldado em San Diego, na Califórnia, e foi à galeria de arte Huntington. Só então pensou que talvez pudesse ser pintor.

Apostado em deixar a sua carreira nas ciências, foi para Paris e depois para a escola Black Mountain, na Carolina do Norte, onde foi aluno de Josef Albers: "Um belo professor, mas uma pessoa impossível", disse Rauschenberg prosseguindo: "Sempre achei as suas críticas tão devastadoras que nunca quis ouvi-las. No entanto, tantos anos depois, ainda estou a aprender o que ele me ensinou."

Chegou a Manhattan em 1949. Na sua primeira exposição individual, em 1951, na galeria Betty Parsons, não vendeu uma única obra. Foi nestes anos optimistas e entusiasmantes que conheceu Susan Weil, com quem foi casado e com quem teve um filho. Só depois do divórcio as suas relações com os artistas gay de Nova Iorque, como Cy Twombly, Jasper Johns, John Cage e Merce Cunningham se intensificaram.

Em meados dos anos 50, em conjunto com Jasper Johns, para ganhar dinheiro fez montras de lojas de Manhattan como a famosa joalharia Tiffany's. O sucesso viria depois e foi tão intenso que teve de sair de Nova Iorque e isolar-se numa ilha em Cativa: expôs nos melhores museus, teve as melhores galerias, foi comprado pelas melhores colecções e tornou- -se uma celebridade. Em 1964, ganhou o prémio de pintura da Bienal de Veneza.

Foi comparado a Duchamp depois de, com uma borracha, ter apagado um desenho do importante artista Willem de Kooning. Um gesto que constituiu um ataque radical aos valores estabelecidos da arte do seu tempo e uma espécie de vénia aos artistas mais velhos. Assim acabou por conquistar uma voz própria.

A procura da diferença vai ditar a sua contínua mobilidade, as viagens permanentes - aspectos essenciais no seu processo criativo. "Em viagem, conhecem-se as diferenças e as surpresas do mundo" escreve João Fernandes no catálogo de Serralves.

Não se trata de um gosto pelo exótico, mas da generosidade do olhar de Rauschenberg: "Aproveitei todas as oportunidades que o meu trabalho me proporcionou para chamar a atenção para problemas do mundo e, nalguns casos, celebrar os feitos da humanidade. Esforcei-me por reunir influências para fazer surgir uma relação mais realista entre o artista, a ciência e os negócios, num mundo que ameaça aniquilar-se por uma ninharia. O progresso não é possível sem consciência."|
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