Sábado, 17 de Maio de 2008
Edição Papel
Director: João Marcelino
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Rui Hortelão
Subdirectora: Catarina Carvalho
Lisboa
17.05.08
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Memória do Porto partilhada


FRANCISCO MANGAS
Germano Silva. É autor em destaque na Feira do Livro do Porto, que abre dia 21. Escreve a cidade, as pequenas memórias portuenses, e orgulha-se de ter vivido a infância numa ilha operária
Havia um incêndio na Rua de Santa Catarina, no Porto. O chefe de redacção pede ao jovem jornalista para ir ao local ver o que se passava. Regressa pouco depois, porque a rua fica perto do jornal e os bombeiros resolveram a situação em escassos minutos. Regressa desiludido.

O primeiro trabalho do repórter Germano Silva foi pouco emocionante. Uma notícia breve bastou para informar os leitores de que o incêndio não foi "pavoroso" nem "dantesco", como costuma ser o fogo que aparece nos jornais, mas tratou-se apenas de um esquecido ferro de engomar sobre uma peça de roupa. Muito fumo, muito aparato, poucos danos.

A breve e banal notícia, publicada no Jornal de Notícias nos anos cinquenta do século passado, no entanto, foi decisiva no rumo de Germano Silva. No dia seguinte, O Primeiro de Janeiro destaca o episódio: o incêndio, embora de pouca monta, tinha afectado a casa onde nasceu um portuense ilustre - o romancista Arnaldo Gama.

O chefe de redacção chamou o jovem jornalista e disse estas palavras: "Só serás um bom repórter se conheceres a cidade." A partir desse dia, Germano Silva inicia a descoberta do Porto, aventura infinda, sempre emocionada. Começa pela toponímia. Fica a saber, por exemplo, que a Rua do Dr. Alves da Veiga antes se chamava Rua das Malmerendas. E por que razão assim se designava?

A dúvida leva-o a consultar a obra de Magalhães Basto e Alberto Pimentel. E essas leituras abrem caminho a outras interrogações. Por que chamam Invicta à cidade? Quem foram e que poder tinham os bispos? O que foi o Cerco do Porto?

Muitas horas na biblioteca pública, muitos livros e outros documentos adquiridos nos alfarrabistas deram a resposta e lançaram novos desafios ao jornalista tocado por imensa curiosidade. "Devo ter uma das melhores bibliotecas sobre o Porto", informa. Milhares de livros, panfletos, fotografias antigas, diversos manuscritos, colecções de jornais.

Tudo serve, tudo abre pistas para dar luz a pequenas memórias. Pelos anúncios dos periódicos do século XIX, achou sítios da cidade já desaparecidos. No jornal a Vedeta Constitucional deparou com um anúncio da venda da Quinta do Carvalhal, na Calçada das Corticeiras, com casa e capela. Germano aprofundou a investigação e veio a descobrir que esse bonito local, debruçado na margem direita do rio Douro, era uma brévia (lugar de repouso e meditação) dos jesuítas. Depois da expulsão destes religiosos, foi aí instalada a Fábrica de Cerâmica do Cavalinho, que mais tarde passou para Gaia.

Germano Silva, que a Feira do Livro do Porto vai homenagear, muitas histórias da história da cidade conhece. E partilha-as, nos livros que escreve, quase todos esgotadíssimos, nos passeios que guia com paixão e sabedoria. O espírito de partilha e generosidade, diz este velho andarilho fascinado, é fruto da infância vivida no bairro operário do Cruzinho.|
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