Sábado, 17 de Maio de 2008
Edição Papel
Director: João Marcelino
Directores adjuntos: Filomena Martins,
Rui Hortelão
Subdirectora: Catarina Carvalho
Lisboa
17.05.08
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Ele quer tirar os militantes do sofá


JORGE FIEL
HERNÂNI PEREIRA
Foi à sobremesa de um almoço de amigos - "gente boa", sublinha -, num restaurante de Cascais, que decidiu candidatar-se à presidência do PSD. Em cima da mesa, estava a situação criada pela demissão de Luís Filipe Menezes.

Todos os comensais concordavam em queixar-se do círculo vicioso que se apoderou da política portuguesa, de "serem sempre os mesmos" e do poder excessivo dos aparelhos partidários. Foi no meio destas lamúrias que António Neto da Silva, 60 anos, economista, tomou a grave decisão de avançar.

Avança sozinho, desprovido de apoio no aparelho e sem financiamentos de qualquer espécie.

"É uma candidatura completamente independente. Quem dá quer sempre qualquer coisa em troca. Nestas coisas não se pode acreditar em milagres da Senhora de Fátima", explica o candidato, sentado num sofá no átrio do Ritz, em Lisboa, onde tinha o quartel-general montado.

"Não estou amarrado a nada nem a ninguém. Tenho as mãos livres", jura.Sem sede de campanha, nem cartazes, foi forçado a optar por uma campanha cibernética, que tem o centro de gravidade no sítio www.antonionetodasilva.org, onde divulga as ideias-chave e o currículo. "Não ando para aí a fazer circo", refere.

Para além do ecrã de computador, Neto da Silva conta divulgar as suas ideias no espaço que os media lhe dediquem. Por isso, foi rápido a queixar-se à ERC da discriminação de que acha que está a ser alvo. "Não se pode tratar as eleições no PSD como se só existissem três candidatos."

"O PSD é um partido interclassista, de poder, muito dinâmico, que vale muito mais que as três personalidades que estão a polarizar a atenção dos media", acrescenta.

"Não basta dizer, é preciso fazer - e eu faço" é o slogan de uma campanha em que o currículo é a principal arma usada pelo candidato para seduzir os militantes laranjas.

Conseguir trazer para Portugal a Autoeuropa, uma fábrica disputada por 42 paises, é a linha mais vistosa do seu currículo, escrita quando foi secretário de Estado do Comércio Externo e Investimento Estrangeiro, num Governo de Cavaco Silva.

Do período em que teve o Estado como patrão, orgulha-se ainda de ter liderado as negociações de desarmamento do GATT, que concluíram com o Acordo Multifibras que concedeu um período transitório de protecção à nossa têxtil.

Com excepção da passagem pelo Governo, pela vice-presidência do ICEP e pelo Comité Económico e Social da CEE (recorda ter sido eleito, por unanimidade, pelos 182 membros deste organismo, presidente do Comité de Relações Exteriores), fez o essencial da sua carreira como empreendedor. "Sou um homem das empresas, não da função pública", esclarece.

Para além do currículo, o candidato declara ter ideias bem arrumadas sobre o que faria se fosse eleito. "Se eu pego no Governo, a primeira coisa que faço é libertar a sociedade civil das garras do Estado." Mas antes do Governo, há o partido: "Se for eleito acabam-se os grupos. Vou buscar as pessoas melhores e mais capazes para desenvolver Portugal. Estávamos acima da Grécia. Agora qualquer dia já ficamos atrás da Roménia", desabafa.

Neto da Silva olha para esta campanha como uma espécie de tira-teimas - de prova dos nove. "Toda a gente de fora do aparelho diz que o partido está cansado e que é por isso que 54% dos militantes não votaram nas últimas directas. Com a minha candidatura eu quero testar se o PSD está mesmo cansado. É preciso que os militantes saiam do sofá e concedam assinaturas e votos a uma candidatura de ruptura. Se não saírem do sofá, então não se queixem…"

Mas o candidato jura acreditar que os militantes vão levantar-se do sofá: "Pode haver mesmo uma surpresa…" Mas se não houver surpresa garante que, "qualquer que seja o líder eleito", estará com ele até ao fim.|
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