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Dos Açores ao Canadá
PAULO FAUSTINO, Ponta Delgada
Ninguém diria que o homem que saiu há 22 anos de Rabo de Peixe para melhorar a sua vida no Canadá se tornaria hoje no presidente do maior sindicato ligado à construção civil na América do Norte. Chama-se Durval Terceira, tem 40 anos, e é um filho orgulhoso da localidade piscatória que o viu nascer e que hoje, tal como na década de 80, quando emigrou, é a mais afectada na ilha de São Miguel por um rótulo de pobreza de que parece nunca mais se livrar. Durval Terceira, a imagem do êxito, representa o oposto desse estigma eterno. E passa indiferente a isso. Adora a sua vila natal, Rabo de Peixe, a bela ilha de São Miguel e Portugal. Mas não esconde que é o Canadá, especialmente a cidade de Toronto, que verdadeiramente "ama". Ama desde o primeiro dia em que ali chegou. Talvez por ter sido neste país, terra de emigração para milhares de açorianos, onde já viveu mais de metade da sua vida, e seguramente por ter ali cumprido o sonho de ser líder sindical. E logo de uma das maiores estruturas sindicais do mundo no sector da construção, o Local 183, que defende, entre outros, os interesses de associados cuja larga maioria são emigrantes portugueses que retiram o seu ganha-pão em cima de andaimes, normalmente junto de arranha-céus.
"Quando me mudei para o Canadá, a minha vida era igual à de qualquer outro emigrante. Não é fácil ir para um outro país, sem falar a língua. Tive de fazer um sacrifício no princípio. Não foi fácil, mas, o que queria ser, finalmente vim a conseguir: representar os trabalhadores." Fez esta confissão à margem da sua mais recente visita a São Miguel, onde foi recebido por Berta Cabral, presidente da Câmara de Ponta Delgada. Mas nem tudo são rosas no Local 183, sedeado em Toronto: esta associação/organização de defesa dos trabalhadores passou por uma fase conturbada da sua existência em 2004, ano em que foi desencadeada uma investigação à natureza de certos contratos e "de muitas coisas que houve". Durval Terceira prefere sublinhar a sua vitória em Setembro passado para a liderança do sindicato, ao obter 91% dos votos, e a sua tentativa para fazer jus ao nome do Local 183, "devolvendo" o sindicato às bases, ou seja, aos operários da construção civil.
"O meu cargo acarreta uma responsabilidade muito grande. Mas sinto-me muito feliz e orgulhoso, não só por ser português mas por poder representar pessoas como eu, que tentam viver do dia-a-dia", sublinha. Grande parte dos açorianos que emigrou para o Canadá e Estados Unidos da América foi para a construção. Hoje, talvez pelo sentimento patriótico, Durval Terceira sublinha ser uma honra defender essa gente. "É bom sentirem que têm uma pessoa que os defende, sem medo, nem vergonha." Por exemplo, resolver um problema premente da actualidade que é o de vários trabalhadores da construção que permanecem em situação ilegal no Canadá e que, depois de apanhados pelas autoridades, acabam por ser repatriados para os Açores. O Governo federal canadiano permite a estes homens que regressem ao Canadá, mas só depois de fazerem uma espécie de período de "nojo" durante seis meses no país ou região de origem, e provarem que têm o registo criminal "limpo". Mas o Local 183 está empenhado em convencer o Governo canadiano em abrir uma excepção, no acesso ao trabalho e na regularização da sua situação legal, aos trabalhadores portugueses.
Durval Terceira veio pedir essa ajuda às autoridades açorianas, de modo a que o Canadá permita sem mais delongas o regresso dos açorianos expulsos por estarem indocumentados. Seria um regresso a título de experiência durante um prazo de três ou quatro anos, findo o qual, tendo a pessoa demonstrado a sua competência e idoneidade, adquiriria o estatuto definitivo de emigrante legalizado. Ajuda nesse objectivo a fama que o português tem na América do Norte de trabalhador competente, honesto e incansável. Aliás, os portugueses, segundo Durval Terceira, são os mais bem referenciados naquela parte do mundo ao nível das construções: "O português é conhecido por toda a parte: não tem medo de nada e quando é para trabalhar é mesmo para trabalhar. Este sindicato foi formado e liderado por portugueses. E o facto de a maioria dos sócios do Local 183 ter origem lusa é muito importante para a nossa comunidade." |
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