Sábado, 17 de Maio de 2008
Edição Papel
Director: João Marcelino
Directores adjuntos: Filomena Martins,
Rui Hortelão
Subdirectora: Catarina Carvalho
Lisboa
17.05.08
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De A de abertura a R de ruptura


JOSÉ MIGUEL SARDO, Paris
Abertura

Sarkozy convidou várias figuras da oposição e activistas para ocupar pastas ministeriais, sendo o mais conhecido o socialista Bernard Kouchner, uma das figuras públicas mais carismáticas em França, que actualmente chefia os Negócios Estrangeiros. No elenco governamental conta--se ainda Fadela Amara, activista pelos direitos das mulheres, e Martin Hirsch, antigo presidente da associação Emmaus. Mas os dossiês sensíveis como a política dos subúrbios, a questão do Tibete ou dos direitos humanos na Líbia e na Tunísia, provocaram fissuras nesta abertura.

'Bling-bling'

Depois da vitória presidencial, Sarkozy parte para férias para Malta a bordo do iate luxuoso de um grande milionário francês, depois de celebrar a vitória no Fouquet's, um dos restaurantes mais caros de Paris. Os jactos privados, os Rolex, os óculos Ray-Ban, os presentes de noivado excêntricos, vão dar-lhe a alcunha na imprensa de presidente bling-bling, em referência ao estilo dos cantores de hip hop norte-americanos, com a respectiva modelo inocente a ornamentar a pose de durão.

Hiperpresidente

Muitas vezes comparado a um Jack Bauer da política, Sarkozy multiplica as aparições ao longo do dia para combater as crises em todas as frentes - da vítima de um incêndio criminoso num subúrbio ao impasse sobre o Tratado Constitucional europeu, ou frente a operários de uma siderurgia ameaçada de encerramento. Passando os ministros para segundo plano, multiplica anúncios e medidas e enfrenta, cara a cara, e frente às câmaras, os descontentes. Irascível, afirma face a um visitante da feira de agricultura de Paris, que se recusa a apertar-lhe a mão: "Pisga-te, parvalhão."

Identidade nacional

Criou pela primeira vez um ministério que agrupa a Imigração e a Identidade Nacional, numa piscadela de olho ao eleitorado de extrema-direita. Defendendo que "ou se ama ou se abandona a França", impôs o princípio de "imigração seleccionada" e estabeleceu uma quota de expulsões anuais de 25 mil imigrantes ilegais. No entanto, o Governo continua a negar a regularização à maioria dos imigrantes sem papéis que trabalham no país. O tema promete dominar a presidência francesa da União Europeia.

Poder de compra

"Serei o Presidente do poder de compra", prometera durante a campanha. Depois de ter apelado aos franceses para "trabalhar mais para ganhar mais", admite, em Janeiro, que "os cofres do Estado estão vazios" e é preciso fazer mais sacrifícios, mas sem querer falar de um plano de rigor orçamental. Os preços aumentaram 3,2% desde o início do ano e o défice público poderá atingir a barreira máxima dos 3% do PIB fixada para a zona euro.

'Karsher'

Sistema de lavagem à pressão que, como ministro do Interior, utilizou como metáfora para prometer pôr fim à insegurança nos subúrbios. Os motins de 2005 constituíram um balde de água fria sobre a posição repressiva de Sarkozy. Apelidado então de "primeiro polícia de França", já na presidência prometera um, até agora adiado, Plano Marshall contra o desemprego, a insegurança e a desilusão dos subúrbios franceses.

Sarko 'show'

Em 2007, as televisões nacionais realizaram no total cerca de duas peças por dia sobre Sarkozy. A última entrevista, no dia 24 de Abril, foi difundida por cinco canais, em directo do salão de festas do Eliseu, com o Presidente a ter voto na escolha dos temas e mesmo dos entrevistadores. Orçamento da produção: 280 mil euros.

'Sarkozya'

Palavra utilizada para descrever o círculo de conselheiros, patrões de grandes empresas ou amigos pessoais em torno de Nicolas Sarkozy, cujas declarações na imprensa semeiam a confusão em torno da política do Governo. À frente deste batalhão encontra-se o secretário do Eliseu, Claude Guéant, habitualmente apontado pelos críticos como um "cardeal Richelieu", acusado de se querer substituir aos ministros.

'Storytelling'

Método de comunicação política criado nos Estados Unidos após o escândalo Watergate para proteger o Presidente que consiste em passar uma mensagem contando uma história que marque a agenda dos media. O conselheiro especial Henri Guaino é o homem encarregado de escrever as histórias, redigindo discursos cujas metáforas se transformam em refrões em todos os debates. Exemplo: evocar "a França que se levanta cedo" ou o direito a "trabalhar mais para ganhar mais" para defender as reformas na legislação do trabalho.

Ruptura

A palavra-chave da campanha, aplaudida durante as presidenciais, está hoje na base da maioria das críticas ao Chefe do Estado. Ruptura com o modelo social francês, que Sarkozy critica como "assistanato de estado", mas também com o estilo dos anteriores presidentes. No entanto, quando quer vestir a pele do Presidente, recorre frequentemente à pose do seu predecessor. Face às críticas dos últimos meses surgiu na última entrevista televisiva com a mesma voz pausada, o mesmo discurso conciliador e a postura paternal do anterior Presidente.|

Carla e Cécilia

O lado "telenovesco" da Presidência contribuiu, sem dúvida, para a queda nas sondagens, em especial junto do eleitorado conservador. Divorciado e casado de novo em apenas três meses, o Presidente acabou por dominar a acção política com algumas estranhas coincidências na sua vidas privada. O divórcio com Cécilia fez passar para segundo plano uma das primeiras greves do seu mandato, o romance e casamento com Carla Bruni ofuscaram a visita a Paris do ditador líbio Muammar Khadafi, assim como o delicado debate sobre a ratificação do Tratado de Lisboa.

Maio de 68

Ainda em campanha, Sarkozy não hesitou em apelar à "liquidação da herança do Maio de 68" para sublinhar a necessidade de ruptura com o que considerou ser a fonte do "cinismo na sociedade e na política francesa", culpando os valores da época das derivas actuais do sistema capitalista. Um discurso para consolidar o apoio do eleitorado conservador, atingindo no coração, sindicatos e socialistas. De Gaulle, o presidente conservador que enfrentou a ira das ruas durante o Maio de 68, acabaria por ser reeleito depois dos protestos, com maioria absoluta. Quererá Sarkozy repetir o feito? A resposta surgirá após as manifestações das próximas semanas.

Reformas

Outro refrão. Sarkozy afirma ter iniciado 55 reformas num ano (mais do que o seu antecessor, Jacques Chirac, em 12 anos no poder). Criticando o imobilismo do país nas últimas décadas, Sarkozy mostra-se hiperactivo. Sistema de pensões, Segurança Social, ensino, emprego, Constituição, fazem parte da longa lista. No início do mandato fez da sua eleição, com 53% de votos, um sufrágio às suas medidas, contra os protestos dos sindicatos - um argumento menos consensual, um ano depois, quando conta com o apoio de apenas 38% dos franceses, segundo as sondagens.
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