Sábado, 17 de Maio de 2008
Edição Papel
Director: João Marcelino
Directores adjuntos: Filomena Martins,
Rui Hortelão
Subdirectora: Catarina Carvalho
Lisboa
17.05.08
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ARQUEOLOGIA INDUSTRIAL E O VELHO OPERARIAD0


Ana Sá Lopes
jornalista
Tenho alguma nostalgia do tempo em que os jornalistas se preocupavam apenas com procurar informação e escrever. Havia, depois, outros profissionais responsáveis pelo resto da cadeia de produção: compositores, maquetistas, etc. A abençoada revolução tecnológica eliminou vários elos da cadeia e fez de cada um de nós um produtor todo-o-terreno. Eu sei que dizer isto não é fashionable e que é mais ou menos tão interessante como ter saudades do tempo em que não havia telemóveis. Mas, no caso do jornalismo, os telemóveis (e os computadores ligados à Net) operaram uma revolução que tornou a produção mais fácil. Em contrapartida, o tempo que transferimos do "pensar a notícia" para "compor o jornal" (adequar o texto ao grafismo, preencher os "buracos" sem erros gráficos, tratar carácter a carácter cada "caixinha" e título e "destaque" e "frase", de maneira a que o produto fique bem acabado) tornou-nos parte de uma linha de produção que parecerá hoje estranha aos jornalistas mais velhos.

Por pouco tempo (meses) ainda fui "contemporânea" da máquina de escrever. Quando cheguei a O Jornal em 1987 havia duas pessoas que já utilizavam o computador, a título experimental: o Henrique Monteiro e a Lurdes Feio. A informatização da redacção estava num processo inicial e, para muitos, o computador parecia um monstro (o Fernando Assis Pacheco recusou-o sempre) .

A esmagadora maioria escrevia à máquina, algumas enormes e monstruosas, outras mais pequenas e leves. Para quem gosta de arqueologia operária, uma máquina de escrever é um exemplar delicioso. Lembro-me de uma coisa ridícula: ter tentado começar por escrever primeiro os meus textos à mão - para só depois de apurados passá-los à máquina. Alguém me deu um berro: isso não se fazia, nunca se fazia, um jornalista a sério escrevia directamente para a máquina.

E o que fazia quando se enganava? Fazia por cima do erro, da palavra mal escrita, da expressão mal-amanhada. A primeira revolução do microsoft word foi a de, num ápice, varrer da vista e apagar da memória o pré-texto: ou seja, tudo o que existe antes de existir um texto definitivo, tudo o que nos passou pela cabeça escrever sem nexo, o monte de expressões absurdas, ou fatelas, que, melhoradas por tentativa e erro, se irão transformar no texto final.

Se se irritava muito, rasgava a folha, amachucava-a e atirava-a para o chão. Lembro-me de ver o chão cheio de papéis alvos de fúrias de quem amaldiçoava o seus próprios textos.

O que eu nunca vi foi uma máquina de escrever ir pelo ar. Mas fazia parte da mitologia das redacções, antigamente, as histórias de alguém que tinha ameaçado outrem de lhe atirar com a máquina à cabeça. Essa mitologia também desapareceu com os computadores. Terá a ver com o excesso de cabos?|
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