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A ÚLTIMA ESTRELA
Nuno Crespo crítico
No obituário que o New York Times dedica a Robert Rauschenberg chama-se-lhe o "titã da arte americana". Foi esse titã que, acompanhado pelo seu último companheiro, esteve em Serralves em Outubro passado para inaugurar aquela que hoje sabemos ter sido a sua última grande exposição. A sua debilidade não impediu que todos sentissem o magnetismo de estar face a um dos mais importantes construtores da recente história da arte.
A influência que teve sobre nós - sobre o modo como fazemos e vemos a arte - foi tão intensa que estamos ainda longe de saber qual a sua real dimensão: os ecos daquilo que fez ainda ressoam com demasiada intensidade para o podermos avaliar. Sabemos que depois de Rauschenberg a arte não foi a mesma, os nossos olhos também mudaram e com eles o pensamento acerca das coisas da arte e dos artistas. Os seus gestos, generosos e precisos, fizeram com que a gramática artística conhecesse uma inesperada expansão de âmbito.
A maior lição que podemos aprender com Rauschenberg diz respeito ao tipo de compromisso que o artista deve estabelecer consigo próprio, com as suas expectativas, desejos e com o seu trabalho. Aspectos éticos que tinham como premissa uma espécie de glorificação da vida de todos os dias e de todos os homens: os elementos que integra nas suas pinturas dizem sempre respeito às aflições humanas. O esforço foi o de devolver o brilho, a intensidade e a visibilidade àquilo que continuamente está diante dos nossos olhos.
Depois de Warhol, ele era a última estrela da arte. Com ele acabou-se aquele gesto que vinha dos tempos memoráveis da arte dos pós-guerra: esteve no centro de uma Nova Iorque que deu ao mundo a sensação de tudo ser possível. E o seu trabalho, a sua história, o seu sucesso são a prova disso. Em termos estritamente artísticos, os seus trabalhos são de uma pertinência, qualidade, rigor e, muitas vezes, beleza indesmentíveis. Mas é o comprometimento da sua obra com uma certa ordem do mundo aquilo que mais impressiona: condena, glorifica, atribui valor, regista aquilo que não pode ser esquecido.
Robert Rauschenberg foi tão longe quanto se poderia ter ido. O seu lugar na história do nosso olhar está garantido. Porque com ele aprendemos a detectar determinados aspectos, a estabelecer certas relações, a descobrir certas coisas: com ele aprendemos a ver aquilo que de outro modo nunca poderíamos ter visto. Esta é a herança que nos deixa e a que devemos honrar.|
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