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REFRACTÁRIO OU EXILADO
FERNANDO MADAÍL
26, 28, 27 centímetros... - naquela cave mediam-se as patas das peles de crocodilo para a indústria de sapatos e de carteiras. Após esta estreia laboral, Isabel Alves Costa, que fugira para Paris atrás do seu namorado José Mário Branco e é hoje figura importante no mundo do teatro, trabalhou em laboratórios de produtos farmacêuticos e em requintadas lojas de perfumes, nesses tempos em que a liberdade e a militância em grupos de extrema-esquerda se equilibravam com um quotidiano economicamente difícil.
Aquela elite estudantil voluntariamente exilada sobrevivia através de biscatos de ocasião e em ofícios tradicionais do prole-tariado - que quase todos, apesar das di- ferenças ideológicas que até identificavam cada um dos cafés frequentados por portugueses, não só defendiam, como até enalteciam - para os quais não estava preparada.
Antes da festa do Maio de 68, Paris passara a ser a cidade de um milhão de portugueses, como recorda o cartunista Vasco de Castro, e aquela leva de jovens - entre os 18 e os 30 anos, fugidos de um país onde eram perseguidos por ligações aos movimentos associativos ou ao PCP, por serem refractários ou desertores da guerra colonial - procurava conciliar estudo e trabalho, empregos em fábricas ou restaurantes com uma vida universitária. Mesmo os não matriculados, conta Isabel Alves Costa, tinham cartão de estudante, que lhes permitia comer nas cantinas, ter acesso a casas baratas, beneficiar de descontos em livrarias e cinemas.
Não havia muitas moedas para pôr na jukebox do café L'Écritoire, frequentado pelo grupo de Fernando Pereira Marques (que tirava então o curso de Sociologia que lhe permite ser hoje professor universitário), e escolher uma música dos Beatles ou dos Animals, de Mouloudji ou de Adamo, dos Procol Harum ou de Nana Mouskouri. Até Maio de 68, na capital francesa não se ouvia muito Bob Dylan ou Joan Baez e se havia quem se mantivesse fiel à ética de Brassens e Ferré, como José Mário Branco, outros deixavam-se fascinar pela nova estética dos Beatles e Rolling Stones, como Sérgio Godinho, o padrinho do filho de que Isabel Alves Costa estava grávida quando ia para a Sorbonne em plena agitação académica - e José Mário, que cantava nos caveau e trabalhava numa firma de import-export, acompanhava no seu carro utilitário para lhe abrir a porta quando surgia a polícia nas manifs.
Varressem armazéns ou tomassem conta de um deficiente, como Fernando Pereira Marques, ou fossem operários da Renault durante bastante tempo, como sucedeu com Aires Rodrigues, que antes tinha frequentado a Universidade de Coimbra, quase todos contavam os francos. Os pais de Isabel Alves Costa até lhe mandavam os collants que ela não tinha dinheiro para comprar.
Já Vasco de Castro, pioneiro no exílio desta geração, após dois anos a pintar apartamentos, a trabalhar como guarda de noite num hotel ou a secretariar um conde de origem espanhola, tinha conseguido uma tal situação como desenhador satírico que chegava a trabalhar simultaneamente para publicações tão distintas entre si como Figaro Littéraire e Le Monde, Le Nouvel Observateur e Politique Hebdo - e podia dar-se ao luxo de só trabalhar dois dias por semana.
Ao contrário da maioria de les portugais, Vasco de Castro, que chegou a Paris logo em 1961, rapidamente se integrou nos círculos dos jornais, das artes, do cinema, que estavam a trocar o bairro turístico de Saint-Germain-des-Prés por Montparnasse. Por isso, e por ter feito um "duche mental" de dois ou três anos em que não falou português com ninguém, também frequentava mais o Select, La Rotonde ou o Dôme do que o Café du Luxembourg, o Lutèce ou o Mahieu.
E, antes do Maio em que toda a gente conversava sorridente, sentia-se alguma xenofobia. Isabel Alves Costa foi insultada quando a ouviram falar português com a mãe, numa fila do mercado: "vai-te embora para o teu país", "estás-nos a roubar o pão". O chauvinismo gaulês não foi sentido da mesma forma por todos os exilados. Vasco de Castro, nos primeiros tempos, "ficava um bocado parvo" a olhar para os franceses que diziam que ele era de "um país de piratas", até ele próprio perceber que A Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, "são as memórias de um pirata na velhice". Fernando Pereira Marques considera que esta camada jovem, culta e que dominava o idioma não tinha as dificuldades, com a burocracia e a polícia, dos emigrantes económicos, "pobremente vestidos, com dificuldade de se exprimir e que não sabiam preencher os papéis".
E, no mês ainda hoje cantado, surgia a tese de que revolução não era uma ideia terceiro-mundista, boa para a China ou Cuba, mas inexequível na Europa, lembra o cartunista. Mas ainda se mudaram vários calendários - um, três, seis - até ao 25 de Abril. |
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