Nos terrenos onde a capital despejava o lixo, o Exército depositava sucata e as indústrias petrolíferas mantinham os seus armazéns, nasceu a Expo'98. A última exposição mundial do século XX deu lugar a uma megaurbanização planeada de raiz na zona oriental de Lisboa. Hoje, no Parque das Nações, vivem 20 mil habitantes e estão construídos quase seis mil apartamentos. O DN falou com os primeiros a descobrir o Oriente: chegaram há dez anos e, da sua janela, viram crescer a 'cidade', que pretende ser modelo para as outras mas onde já começaram a surgir as primeiras imperfeições
Maria Fernandes abriu a janela e descobriu três novos edifícios frente ao seu prédio. "O tempo passou a voar e, sem me dar conta, o meu bairro transformou-se numa grande cidade", desabafa a moradora que, em Outubro de 1998, saiu de Loures para viver no primeiro condomínio de habitação do Parque das Nações. Ao longo da última década, a zona oriental de Lisboa cresceu depressa - viu nascer quase seis mil apartamentos e chegar aos 20 mil residentes. Não resta muito mais espaço para a urbanização que ocupou o lugar da Exposição Mundial de Lisboa.
O edificado e a população estão à beira de atingir os limites máximos propostos no plano traçado pela Parque Expo, que prevê ainda a construção de 455 fogos e outros 1382 que vão ficar concluídos em breve. Mas nem é necessário um grande esforço de memória para encontrar o primeiro prédio que desencadeou a explosão urbanística na parte Oriental da capital.
Na rua Ilha dos Amores, o lote 4.39 tem hoje inquilinos em todos os pisos, mas José Rodrigues Moreno foi o primeiro a ali chegar. No dia 30 de Abril de 1998, arrumou as malas na bagageira do carro e deixou com a mulher e os dois filhos a sua casa na Portela, em Loures. A viagem demorou menos de cinco minutos, mas quando a família Moreno entrou no condomínio, o maior projecto de urbanização de sempre saiu do papel e deu lugar ao Parque das Nações.
Durante os cinco meses seguintes, José e a sua família foram os únicos habitantes de um bairro edificado de raiz na zona oriental de Lisboa: "Ser o primeiro a morar numa 'cidade' apontada como modelo para todas as outras foi uma experiência muito solitária", conta o bancário de 60 anos. Sem vizinhos, lojas ou cafés, o morador teve como únicos companheiros os operários que calcetaram passeios, colocaram iluminação nas ruas e plantaram árvores dia e noite para concluírem as obras poucas horas antes da Expo'98 ser inaugurada.
Só no dia 22 de Maio, chegaram os primeiros hóspedes. Japoneses, indianos, árabes, timorenses, australianos, senegaleses ocuparam os condomínios da rua que, há dez anos, serviram para alojar as delegações de centenas de países representados na Expo'98. "Durante os quatro meses que durou o evento, tive a sensação de viver numa espécie de Torre de Babel, no meio de tantas raças e línguas diferentes." E até finais de Setembro, o seu bairro foi também o mais seguro em todo o país com polícias e seguranças privados em "cada esquina".
No final da Exposição, cada um dos convidados fez as malas e partiu para o seu país. José voltou a ficar sozinho e, durante um mês, viveu num bairro fantasma: "Tinha de ir a Moscavide para fazer quase tudo, desde levantar o correio no posto dos CTT, despejar o lixo doméstico ou ir às compras." Nem tudo ficava fora de mão. A farmácia de Teresa Esteves abriu em Junho de 1998 para servir os visitantes da Expo'98 e, mais tarde, a família Moreno: "Tive de aguardar alguns meses para ganhar os meus primeiros clientes fixos", recorda a proprietária da Farmácia Parque das Nações, no Jardim dos Jacarandás.
Foi necessário também esperar até Outubro para se conhecer finalmente a primeira vizinha. Maria Fernandes instalou-se no último piso do lote 4 com o marido e os dois filhos: "Terá sido mais ou menos por essa altura que o recinto da Expo passou a designar-se Parque das Nações." Os primeiros meses foram os mais difíceis porque, ao contrário do que imaginou, o novo bairro não passava afinal de meia centena de hectares com outra meia centena de prédios vazios: "Parecia que vivia num deserto ao pé do rio, mas o que mais me fazia confusão era o silêncio das ruas."
O que vale, conta Maria Fernandes, é que, "em menos de nada", o Parque das Nações transformou-se "numa cidade". No início de 1999, Vasco Alves saiu de Bucelas com a sua família e veio viver para o edifício ao lado do seu. Nesse mesmo ano, chegaram também outros moradores vindos de Benfica, Portela, Moscavide, Sintra e ainda Lucília Santos, que deixou a cidade de Toronto, no Canadá, para abrir uma casa de plantas e flores frente ao lote 4.39. Poucos meses antes de entrar no novo milénio, o Parque das Nações já tinha a esquadra da PSP, ao lado do lote 4.39, a Escola Básica Integrada Vasco da Gama, a meio da Rua Ilha dos Amores ou o centro comercial Vasco da Gama, que ocupou a entrada principal da Expo'98.
A urbanização expandiu-se para Sul, atraiu mais de cem empresas nacionais e internacionais e ainda hoje seduz todos os meses dois milhões de visitantes que elegem o mais recente bairro de Lisboa para gozar as suas horas de lazer. O Parque das Nações é, de noite ou de dia, um espaço de diversão para a Área Metropolitana de Lisboa e até para a Península de Setúbal. Dez anos depois do fecho da Expo'98, os outros centros de lazer da capital têm agora de competir com os jardins, os relvados, o Oceanário, as esplanadas, o centro comercial, ou os bares e discotecas da zona Oriental.
Sempre que há uma nesga de sol, carrinhas e automóveis atafulhados de bicicletas, patins, papás, netos, avós e bichos de estimação chegam de Sintra, da Amadora, de Odivelas, do Montijo ou de Alcochete à procura de um lugar junto ao rio. Elsa Santos Ferreira, mora em Belas (Sintra) e deixou de levar o filho de nove anos ao Parque do Monsanto, ou ao Estádio Nacional; Ana Jeremias, que vive em Rio de Mouro (Sintra), e Inácia Rodrigues, moradora no Bairro Madre Deus (Lisboa), já não se encontram com tanta frequência no Jardim Zoológico ou em Belém; Susana e Artur Guedes passaram a morar em Alchochete em 2003 e, desde essa data, "não há um sábado ou então um domingo" que o casal não esteja zona Oriental de Lisboa.
O Parque das Nações é um vício para muita gente que já nem se lembra sequer para onde ia antes da Expo'98. "Vir aqui é um hábito tão antigo que quase nem me recordo dos outros locais que costumava frequentar ", confessa, entre risos, Aníbal Fonseca, bancário de 36 anos.