Sábado, 17 de Maio de 2008
Edição Papel
Director: João Marcelino
Directores adjuntos: Filomena Martins,
Rui Hortelão
Subdirectora: Catarina Carvalho
Lisboa
17.05.08
dn.homepage » dn.centrais

Expo'98 não passou por aqui

A Expo'98 não passou pelo Pátio do Colégio e o Pátio do Colégio não passou pela Expo'98. No antigo Palácio Marquês de Abrantes, na parte velha da freguesia de Marvila, nenhum dos 12 moradores visitou a Exposição Mundial de Lisboa. "Tinha o meu marido doente e não arranjei tempo para lá ir", explica Isilda Dias. É a única que consegue encontrar uma justificação. Todos os outros encolhem os ombros, como se não houvesse um motivo especial para "sair de casa e meter-se na confusão", confessa Maria Augusto.

Nas vilas operárias do Beato contam-se também pelos dedos os habitantes que conheceram o Pavilhão da Realidade Virtual, assistiram aos espectáculos na Praça Sony ou viajaram de teleférico. Cada um deles mora a menos de cinco quilómetros de distância do Parque das Nações, mas o intervalo que os separa da Expo'98 ainda hoje se mantém. Pertencer à zona oriental de Lisboa de pouco valeu, há dez anos, quando o Estado investiu milhões na reabilitação urbanística da zona envolvente.

Os residentes de Marvila ou do Beato ainda acreditaram no início que a última exposição mundial do século XX iria mudar as suas vidas. "Há coisa de 10 ou 12 anos estiveram aqui uns engenheiros e uns arquitectos que entram nas nossas casas, tiraram notas e foram-se embora", recorda Isilda Dias. Os "senhores doutores" também passaram pela Vila Dias, na freguesia do Beato, recorda Hilda Quadrado e chegaram até a notificar o proprietário para fazer obras no seu bairro.

Nunca mais voltaram ao Pátio do Colégio ou à Vilas Dias e os moradores continuaram até hoje a viver em casas que se desfragmentam todos os dias. Isilda, Maria Augusto ou Hilda Quadrado vão apontando na memória as doenças que as suas habitações foram ganhando na última década. Os soalhos apodreceram aos poucos, os tectos vergaram com a humidade, as paredes escureceram com as infiltrações.

Há "muitos anos" que os moradores de Marvila ou do Beato desistiram portanto de esperar que os efeitos da Expo'98 na zona oriental passasse também pelos seus bairros. Nos últimos meses porém voltaram a acreditar que a mudança afinal estar não está assim tão longe: "Pode ser que seja agora, com a nova travessia do Tejo", diz Hilda Quadrado.

A nova ponte entre Chelas e Barreiro e também o TGV são agora as mais recentes esperanças dos residentes e autarcas das duas freguesias. "É evidente que os novos empreendimentos vão trazer mais investimento para esta zona que já conheceu muitos projectos que foram engavetados", desabafa Hugo Pereira, presidente da Junta do Beato.

O projecto para a zona ribeirinha oriental é um desses exemplos. O objectivo passava por construir uma nova catedral na Matinha e um bairro de 500 habitações de luxo nos Jardins Braço de Prata, mas continua à espera de um plano de urbanização.

Passados oito anos e quatro executivos municipais, o Plano de Urbanização da Zona Ribeirinha Oriental (PUZRO), que abrange uma área de cinco quilómetros entre Santa Apolónia e a fronteira dos municípios de Lisboa e Loures ainda não saiu do papel, apesar de ser considerado um dos mais importantes projectos urbanísticos de Lisboa pós-Expo'98.|- K.C.
HOMEPAGE DN NEGÓCIOS FICHA TÉCNICA CONTACTO CARTÃO GN CLASSIFICADOS