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Como sobreviver à família sem muitas mossas
EURICO DE BARROS, em Cannes
O francês Arnaud Desplechin (Esther Kahn, Rei e Rainhas) é conhecido por fazer filmes autobiográficos, por tirar grandes nacos da sua vida e depois diluí-los e infiltrá-los nos enredos das suas realizações. Un Conte de Noel, que passou ontem na competição, e que é o primeiro filme francês dos três que competem pela Palma de Ouro, contém de novo vários elementos da vida pessoal do realizador - desde a localização em Roubaix, sua cidade natal, até ao facto dos protagonistas incluírem dois irmãos e uma irmã (Desplechin tem um irmão e uma irmã). E o mínimo que se pode dizer é que esperamos que a vida familiar de Arnaud Desplechin seja muito menos agitada do que a do agregado que nos apresenta em Un Conte de Noel.
Numa entrevista dada ao Liberation, o realizador disse que a família, tal como qualquer outra entidade que assenta numa hierarquia e no princípio da organização, tende para o funcionamento deficiente, para a confusão, para a separação. Un Conte de Noel é uma laboriosa, desconcertante, brilhante e exasperante demonstração desta teoria, ao longo de duas horas e meia de cerrado psicodrama colectivo, interpretado por nomes como Catherine Deneuve, Chiara Mastroianni, Mathieu Amalric, Emmanuelle Devos ou Jean-Paul Roussilon, entre outros da mesma estirpe dramática.
Deneuve personifica Junon, a matriarca da família, que descobre que tem cancro e precisa de fazer um transplante de medula para ter hipóteses de sobreviver. Apenas dois membros da sua família são compatíveis com ela: Henri, o filho trafulha e insuportável com o qual toda a gente esta incompatibilizada, e que a irmã do meio salvou de um processo por insolvência, pagando-lhe as dívidas com a condição de ser banido do seio familiar e nunca mais aparecer a ninguém; e Paul, o neto mais velho, um adolescente que parece sofrer de desequilíbrios emocionais e mentais. Uma trégua natalícia é estabelecida, para que toda a família se possa voltar a reunir no casarão de Roubaix, celebrar as festas e decidir quem vai ceder a medula à matriarca.
Há filmes dos quais dizemos que tem "pouca história". Un Conte de Noel é o oposto desses filmes. Não só tem história a mais, como também dá a impressão de ter personagens, peripécias, movimentação dramática, cambiantes de atmosfera e de estados de alma, acompanhamentos musicais, estilos visuais, diálogos e duração a mais. Se fosse uma pessoa, o filme era uma criança hiperactiva e sobredotada, que nos fascina e intriga tanto quanto nos suga a paciência e gasta as energias. Ainda não consegui perceber se gostei ou detestei Un Conte de Noel. Mas que o filme mexeu mais comigo do que um abalo de terra, lá isso mexeu.
Silêncios turcos
Também na competição, foi visto Les Trois Singes, do turco Nuri Bilge Ceylan (Climas), que leva aqui ao limite da depuração, da filtragem formal e expressiva, da sugestão muda, o seu cinema feito de contemplação, de austeridade, de não-dito, de correlação entre a intimidade emocional e psicológica das personagens e o tempo atmosférico. Les Trois Singes começa com um político de Istambul a pedir ao seu motorista que, a troco de dinheiro, arque com a culpa por um atropelamento e fuga, e acaba com o dito motorista a pedir a mesma coisa ao empregado de um café em prol do seu filho. Pelo meio, Ceylan mete um carro em segunda mão, um adultério, meia dúzia de diálogos, muitos silêncios, bastante angústia e um Verão de caloraça e trovoadas, filma tudo em digital scope e assina mais uma obra simplesmente estarrecedora. Se ele filmasse as Páginas Amarelas, eu ia ver.|
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