|
|
Comerciantes de pescado suspendem boicote na lota
JÚLIO ALMEIDA, Aveiro URSULA ZANGGER-ARQUIVO DN
A Associação dos Comerciantes de Pescado (ACOPE) pediu ontem uma audiência de carácter urgente com o secretário de Estado adjunto da Agricultura e das Pescas, Luís Vieira, para discutir o recente aumento de 2% da taxa de comprador que a empresa pública Docapesca passou a aplicar nas lotas do País.
De acordo com fonte daquela organização que representa o sector, o governante foi também informado de que "poderão ser tomadas medidas mais drásticas", caso não haja abertura para o diálogo "até ao início da próxima semana". A reunião foi solicitada depois de os comerciantes da lota de Aveiro terem boicotado a venda na terça e quarta-feira, para contestar a actualização ocorrida no dia 12 de Maio da taxa de comprador que passou de 3% para 5%.
Ontem de manhã, comerciantes, armadores e a delegada local da Docapesca estiveram reunidos no porto de pesca costeiro. Segundo o porta-voz dos operadores comerciais de Aveiro, o protesto ficou suspenso até segunda-feira próxima, "com a condição de a associação conversar" com a tutela governamental. Se não houver respostas "satisfatórias", poderá ser desencadeado novo protesto, já de âmbito nacional, envolvendo também os armadores que já se mostraram solidários.
Nos dois dias de boicote, a lota de Aveiro praticamente não funcionou e os barcos tiveram de rumar a outros portos. O peixe descarregado, 10 a 15 toneladas, seguia por camião para lotas mais próximas.
Um novo protesto, a acontecer, será precedido de aviso prévio. "Não queremos prejudicar os armadores ou a própria Docapesca, mas o aumento de 68% torna-se incomportável e penaliza quem trabalha", referiu Domingos Pepolim.
Em 4000 euros de venda de peixe por dia, 80 euros passam a ser devidos pela taxa de comprador à empresa pública.
Em comunicado, a Docapesca alegou que as taxas não sofriam alterações desde 1977, o que aconteceu agora no âmbito "da profunda reestruturação da empresa" e da criação de melhores condições de operacionalização da venda de pescado.
O porta-voz dos comerciantes de Aveiro lembra, por seu lado, que o investimento nas lotas foi levado a cabo "há dez anos e que está mais do que pago", inclusivamente com fundos comunitários. Refere, ainda, que os operadores "já são confrontados com custos elevados para utilizar armazéns e serviços da Docapesca". O aumento recente da taxa de comprador poderá vir a encarecer o peixe junto do consumidor final.
Mais grave para o presidente da Associação de Armadores de Pesca Industrial (ADAPI), Miguel Cunha, é a medida não resolver "os problemas estruturais" da Docapesca, impondo-se o redimensionamento do número de lotas para aumentar a oferta de peixe e a procura do pescado, sem descurar o controlo ao comércio de peixe fresco. A ADAPI estima que 43 milhões de euros da venda do peixe é feita fora de lota.|
|