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Sócrates fala em "calvinismo político"
GRAÇA HENRIQUES, em Caracas RICARDO OLIVEIRA- GPM
José Sócrates considera que o facto de ter fumado no avião fretado da TAP que o trouxe de Lisboa a Caracas serviu de argumento aos seus inimigos para o atacarem pessoal e politicamente. Calvinismo moral e político, foram as expressões que usou para classificar os comentários à sua cedência ao vício do tabaco no avião, quando foi logo o seu Governo o autor de uma lei restritiva sobre o fumo.
"Não gosto que qualquer episódio sirva para esses calvinistas políticos me atacarem publicamente. Só falta pedirem para que eu seja chicoteado na praça pública", disse Sócrates ontem em Caracas, quando fazia um balanço da visita, mostrando assim o quanto está agastado com a polémica.
Mais uma vez, Sócrates fez questão de afirmar que estava plenamente convencido de que poderia fumar, uma vez que não viajava num voo regular. Frisou ainda que esta situação acontece sempre em visitas oficiais, quando se trata de voos particulares.
O primeiro-ministro, que ainda anteontem tinha pedido desculpas pelo facto de ter fumado, classificou de "lamentável" todo este episódio e condenou o aproveitamento que tem sido feito. Sócrates, que anunciou então ter decidido deixar de fumar - já o tinha feito antes, mas a campanha eleitoral de 2005 fê-lo recair -, admitiu ainda a responsabilidade do Governo no cumprimento da Lei do Tabaco. Ou não fosse ela da sua autoria. Um dia passado sobre a decisão de abandonar os cigarros, garante que não está a sofrer: "Fumava a seguir ao almoço e ao jantar - foi aliás o que aconteceu no avião - e quando estava com os meus filhos já nem fumava".
Os milhões do petróleo
O fumo do tabaco pairou, pois, sobre esta visita de três dias à Venezuela, mas, ainda assim, Sócrates considerou-a "um êxito. É que o Governo português assinou importantes acordos económicos e memorandos de entendimento com o executivo de Hugo Chávez, que multiplicam por dez os valores das exportações para este país. As exportações, na ordem dos 17 milhões de euros, devem passar para 270 milhões em 2009. A venda de bens e serviços acordada nestes dias chega aos 500 milhões de dólares.
Antes de partir para o Peru para participar na cimeira UE-América Latina, Sócrates visitou o porto de La Guaira, cujas obras de ampliação, orçadas em 400 milhões de euros, estão a ser negociadas por um consórcio liderado pela Teixeira Duarte.
Mas outras áreas industriais fizeram acordos: desde logo o sector alimentar - leite em pó, queijo, massas, conservas - passando pela construção naval ou pelo fornecimento de medicamentos. O presidente Chávez simplificou numa frase os negócios: "Petróleo por esparguete". Isto porque em troca dos produtos nacionais, a petrolífera venezuelana vai fornecer 30 mil barris diários de petróleo a Portugal. Um terço do valor, a ser usado como garantia para pagar as exportações das nossas empresas.
Sócrates não se sente incomodado por negociar com Chávez, político acusado por parceiros europeus de exercer uma democracia musculada? Resposta: "O presidente venezuelano não está no poder por um golpe de Estado, foi eleito democraticamente, através de eleições que a União Europeia considera livres e justas."|
A jornalista viajou num avião fretado pelo Governo
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