Sexta, 16 de Maio de 2008
Edição Papel
Director: João Marcelino
Directores adjuntos: Filomena Martins,
Rui Hortelão
Subdirectora: Catarina Carvalho
Lisboa
16.05.08
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O mistério da agitação de editores e livreiros

A intriga que rodeia a realização (ou não) da Feira do Livro de Lisboa é apenas mais um capítulo de uma história de suspense em que o mistério não é saber quem é o criminoso, mas antes apurar a causa da estranha agitação que se apoderou dos editores e livreiros.

De acordo com o estudo "A leitura em Portugal", mais de metade dos portugueses não compraram um único livro no ano anterior. E apenas um em cada 20 declaram comprar um livro por mês.

Pais do Amaral anda por aí com um livro de cheques na mão a comprar editoras e juntou no catálogo Leya os best-sellers Samarago, Lobo Antunes e Sousa Tavares. Não é o único. O banqueiro reformado Teixeira Pinto também desatou a coleccionar editoras.

Enquanto isso, as multinacionais cá instaladas não descansam. O gigante alemão Bertelsmann prossegue um ambicioso plano de expansão da cadeia Bertrand. E a FNAC abre uma loja nova sempre que pode, naquele que é o seu segundo mercado mais lucrativo a seguir ao francês.

A febre das livrarias contagiou os portugueses. As cadeias Almedina, Bulhosa e Leitura crescem a todo o vapor, enquanto Américo Areal investiu na Byblos (a maior livraria do País, com 3300 m2 e 120 mil títulos disponíveis) parte dos milhões de euros que encaixou com a venda da Asa à Leya.

A acreditar nestes sinais exteriores - e no braço-de-ferro que pode inviabilizar a Feira do Livro - , o negócio livreiro em Portugal passou a ser muito apetitoso. Mas tudo isto pode ser aparente e ilusório. Como se sabe, nos bons thrillers o final apanha sempre o leitor de surpresa.



O ministro das Finanças veio anunciar o que já toda a gente desconfiava (e o INE informara): a economia portuguesa está em clara desaceleração, pelo que seria utópico persistir em manter a previsão de um crescimento de 2,2% para este ano.

As previsões valem o que valem, ou seja, pouco, como o notou com graça o economista José Ferreira Machado: "Fazer previsões é como conduzir um carro com os olhos vendados e seguir as instruções de quem está a olhar para a estrada pelo vidro de trás."

Mas seria irresponsável para o Governo manter a palavra "crise" banida do seu vocabulário, como se no mundo globalizado em que vivemos fosse possível que uma economia pequena e aberta como a nossa fosse poupada ao vendaval que atira os Estados Unidos para a recessão, deixa a Europa nervosa a roer as unhas, e pôs um ponto final no fantástico período de prosperidade espanhola.

O Governo Sócrates fez bem em finalmente assumir a realidade diante dos portugueses e meter na gaveta o seu estrambólico remake da teoria do oásis formulada por Braga de Macedo. Como diz o povo, mais vale tarde do que nunca. |
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