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Uma saga olímpica na década de sessenta
NYSSE ARRUDA TIAGO LOURENÇO
Os irmãos Mário e José Manuel Quina lembram-se vivamente da subida ao pódio nos Jogos Olímpicos de Roma em 1960 para receber a medalha de prata na classe Star. "Foi um momento de alegria, de prazer e de dever cumprido. Lembro-me de ver um homem aos pulos logo depois do tiro de chegada e era o reitor da Universidade de Lisboa, o que me encheu de orgulho", recorda Mário Quina, hoje médico da especialidade de gastroenterologia e Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.
É Mário que relembra também os dias intensos de treinos que precederam a competição olímpica e a tensão das regatas que decorreram com bons ventos, à excepção de um dia quando um temporal passou pelo local na noite anterior, deixando a frota sem vento algum no dia seguinte.
"O vento desapareceu mas as vagas ficaram altas e eu enjoo muito com o mar agitado. Daí que durante as longas horas de espera pelo início da regata que seria decisiva, 'alimentei os peixes todos à volta do barco'. Mas ainda assim conseguimos ganhar a prova e garantir a medalha de prata para Portugal", contou Mário Quina.
As suas participações olímpicas porém não ficaram por aí. Ainda nos Jogos Olímpicos de 1952, em Helsínquia, Mário Quina já experimentava o gosto da competição olímpica na classe Finn, um robusto veleiro para um velejador apenas. "O Governo português mandou vir meia dúzia de barcos da classe Finn uns meses antes dos Jogos Olímpicos, e os treinos foram escassos, mas ainda assim ganhei a qualificatória, num ano em que estava a formar- -me em Medicina e tive de pedir licença aos professores para alterar as datas dos exames finais", frisa Mário Quina, dizendo que incorreu numa desclassificação e terminou a competição a meio da tabela.
Depois foram os Jogos Olímpicos do México, em 1968, e Munique, em 1972. "No México usámos o mesmo barco que navegámos em Itália e a nossa prestação não foi tão boa. Já em Munique disputei as regatas na classe Dragão, mas a falta de velas boas, especialmente a vela balão, comprometeu a nossa performance", acrescentou o veterano velejador, dizendo que na época o estatuto de amador saltava à vista junto dos campeões olímpicos.
"Nós apenas treinávamos aos finais de semana e tínhamos um equipamento que muitas vezes estava desactualizado frente aos demais competidores, que recebiam apoios significativos das federações e dos governos dos seus países. Éramos realmente amadores e a vela ocupava um lugar secundário na nossa vida, depois da família e da profissão", admitiu Mário Quina, salientando que hoje as campanhas olímpicas exigem dedicação quase total dos atletas e grandes investimentos financeiros.
Nas provas de qualificação em Tóquio, em 1964, Mário Quina estava prestes a participar nos exames para o seu doutoramento e não conseguiu o apuramento para Portugal, apesar de ter participado nas regatas eliminatórias, que terminaram cinco dias antes dos exames na Universidade Nova de Lisboa. "Cheguei aos exames com o rosto todo avermelhado com a pele a cair e os examinadores fizeram piada da minha aparência e do meu esforço nos estudos", lembrou o velejador, que depois desta fase já não prosseguiu com outras campanhas olímpicas e dedicou-se à medicina, mas sempre se manteve activo a velejar noutras classes de embarcação à vela, como o Dragão, em que veleja actualmente com o filho e os netos.
Mário Quina marcou assim uma tradição de família, iniciada pelo tio- -avô Miguel de Paxiuta - primeiro presidente da Federação Portuguesa de Vela e proprietário do iate Elisa, uilizado nas célebres regatas contra o iate Maristela do Rei D. Carlos - e incentivada pelo pai, médico pediatra, que o inscreveu e aos cinco irmãos no Centro de Vela da Mocidade Portuguesa, onde ingressou na vela a bordo dos famosos barcos Lusitos, um monotipo concebido em 1937 por Rodolpho Fragoso e João Santos Brites, que foi berço de muitos velejadores olímpicos daquela época.
"Lembro-me bem de apanhar o comboio das 07.40 no Estoril para chegar a Pedrouços a tempo de assegurar o barco Lusito favorito, o número 13, e passar o dia a velejar nas águas que margeiam Pedrouços, Cruz Quebrada e Belém, onde ainda havia praias de onde podíamos lançar os barcos à água", adiantou Mário Quina, que só recentemente pôde dispor das facilidades disponibilizadas pela Marina de Cascais.
Hoje Mário Quina é vice-presidente da Associação Portuguesa de Atletas Olímpicos, uma entidade que tenta apoiar os atletas veteranos já afastados das competições, e está a preparar um livro sobre os velejadores olímpicos de Portugal com o apoio do Instituto do Desporto de Portugal.|
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