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Patinar contra o poder do futebol
SÉRGIO PIRES PEDRO GRANADEIRO
Quem entra no Pavilhão Municipal de Gulpilhares descobre que, à primeira vista, o futuro do hóquei em patins parece girar sobre rodas. O rinque enche-se de miúdos. Com patins e sticks em miniatura, eles sonham cumprir o trajecto dos seniores, cujo treino lhes sucede. Os craques em ponto pequeno são parcos em palavras. Querem deslizar no soalho e revelarem de forma indubitável o que querem efectivamente dizer ao acenarem veementemente quando se lhes pergunta sobre o seu gosto pela modalidade.
Com mais de uma centena de atletas, a Associação Cultural e Recreativa de Gulpilhares é uma das maiores escolas nacionais da modalidade. Há miúdos que chegam com quatro ou cinco anos ao clube para fazem todo o percurso até à equipa principal, que disputa há 14 épocas a primeira divisão nacional. Formar é a filosofia deste emblema, conforme salienta o seu presidente Adriano Silva: "Privilegiámos a formação quando a modalidade começou no clube, não tínhamos muitas possibilidades financeiras e desde cedo apostámos nos jovens." É essa missão que assegura o futuro desta agremiação, que se orgulha de não ter dívidas por não entrar em loucuras.
Patinar por gosto
Em todo o caso, houve tempos em que foi mais fácil captar miúdos para jogar. "Toda a gente ouve falar do futebol, o futebol é que dá dinheiro, e acaba por não ser fácil atrair a juventude para o hóquei. Estes miúdos estão aqui por gosto", defende Daniel Oliveira, atleta sénior e treinador do escalão de benjamins (6/7 anos). A opinião é corroborada por Ricardo Ramos, também atleta do plantel principal com as mesmas funções na formação - cuja coordenação está a cargo de Hélder Ferreira -, que ainda assim ressalva a qualidade de muitos: "Se continuarem a trabalhar, terão um futuro promissor."
A juntar-se ao bombardeamento mediático e ao, consequente, "efeito de eucalipto" com que o futebol afecta as restantes modalidades, está o facto de não ser assim tão barato jogar hóquei. Pedro Lourenço, ex-vice- -presidente, actualmente só massagista dos escalões de pré-competição (dos 6 aos 10 anos) por falta de tempo para mais, tem um filho e um sobrinho a jogar nas escolas do clube e sabe bem as contas que os pais fazem para que os filhos pratiquem a modalidade: "Os sticks custam pelo menos 35 euros e uns patins de competição podem custar até 250 euros
Aos pais dos miúdos que entram para as escolinhas compensa-lhes ser sócios. Pagam uma mensalidade de 10 euros e beneficiam de material." Isto com muito esforço da colectividade, já que segundo Adriano Silva o apoio que a autarquia gaiense dá "não chega para 20% dos gastos".
Duas iniciativas, um desígnio
Pedro Lourenço revela ainda as preocupações exacerbadas com a integridade física dos filhos: "Os pais têm medo das boladas. Houve recentemente um jogo em que a mãe de um miúdo saltou logo para dentro do rinque antes de eu chegar assisti-lo." Desse modo, este massagista por hobby já desenvolveu uma táctica para evitar o receio dos miúdos: "Quando entro em rinque, pergunto se querem sair
Eles recusam, querem é continuar em jogo."
Há, no entanto, que fomentar o gosto pelo jogo para fazê-lo chegar a cada vez mais jovens, pelo que o Gulpilhares é profícuo em iniciativas, como um torneio internacional que irá decorrer entre 19 e 22 de Junho ou o campo de férias desportivas a partir de dia 30 do mesmo mês. Esta última iniciativa contará como convidados com várias glórias do clube. Será uma das formas para estimular miúdos que sonham seguir o exemplo de grandes nomes que o Gulpilhares já deu recentemente à modalidade, como Vítor Hugo (Benfica), Caio e Jorge Silva (FC Porto), ou até Tiago Ferraz, Nelson Gomes, Alexandre Saraiva e Diogo Almeida, internacionais que ainda hoje se mantêm no clube e treinam à distância de uma saudação dos seus pequenos fãs.|
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