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"Dirigentes conhecem fraquezas dos árbitros" ALEXANDRA TAVARES-TELES MIGUEL NUNES-ASF
António Sérgio. Experimentou o feitio de Valentim Loureiro e não se encolheu, no último 'Prós e Contras' da RTP, condenando o comportamento do major no 'Apito Final'. Defende que as penas para os dirigentes deviam ir para o dobro e diz que Ricardo Costa, o presidente da CD da Liga, teve coragem A Comissão Disciplinar da Liga anunciou na sexta-feira as suspensões de Augusto Duarte (por um período de seis anos), Jacinto Paixão (quatro anos), Martins dos Santos (três anos), Bernardino Silva (dois anos e meio), José Chilrito (dois anos e meio) e Manuel Quadrado (dois anos e meio). São sanções justas? Ainda não tive tempo de ler, com profundidade, os acórdãos. Mas, a serem verdadeiros os factos, estou de acordo que os árbitros sejam punidos, a bem da arbitragem; se bem que, e numa primeira análise, me pareçam exageradas algumas delas. A Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF) considerou que as penas foram aplicadas "de modo não equitativo, desigual e injusto". Como é que vê o facto destes árbitros terem sido condenados por corrupção consumada e os dirigentes apenas por corrupção tentada? A principal crítica é o da negativa desproporcionalidade em relação às penas aplicadas aos dirigentes. A manterem-se as penas dos árbitros, as dos dirigentes devem ser aumentadas para o dobro. É surrealista que o agente que dá dinheiro apenas pratique uma tentativa de corrupção e o que o recebe pratique um corrupção consumada. Por isso, os regulamentos - aprovados apenas pelos clubes , protegendo melhor os seus interesses - devem ser alterados de imediato. Para colocar todos os agentes desportivos em igualdade. Sem prejuízo de serem, na moldura penal abstracta, mais gravosas as penas dos árbitros. Para evitar estes abusos, os árbitros, tal como os jogadores e treinadores, devem fazer parte da Liga e integrar as estruturas dirigentes, o que, aliás, prevê a Lei de Bases da Actividade Física e do Desporto e o Projecto do Regime Jurídico das Federações Desportivas. A APAF vai patrocinar juridicamente quantos destes árbitros e quais? A APAF já estava a patrocinar alguns árbitros. E já os apoiou no recurso que foi interposto. Quais e quantos são não posso revelá-lo. Tem falado com eles? Tenho falado com o advogado, prestando o apoio necessário. Até porque também sou advogado. Ainda na fase da instrução do processo disciplinar já tal foi feito. Valentim Loureiro acusou Ricardo Costa de vaidade. Concorda? Não concordo que se tenha feita tanta "divulgação de imagem" do presidente da CD da Liga. Parece-me que deveria cumprir-se um certo "dever de reserva". Pode dizer-se que ele poderá orgulhar-se de ter levado a termo processos complexos, cumprindo-se uma promessa pública da Liga. Mas não deveriam ter sido expostos os agentes desportivos ao público mediatismo dos holofotes. Poderia ter divulgado os factos no site da Liga - sem mencionar os nomes das pessoas que não são arguidos - e poderia ter aproveitado para apresentar as suas sugestões para a prevenção da corrupção ao nível regulamentar; mas tudo sem qualquer link com os concretos processos pendentes. Pode dizer-se que Ricardo Costa teve coragem, punindo pela primeira vez em Portugal com mão pesada? Embora tenha cumprido o seu dever, sem dúvida que foi um homem de coragem. Tanto mais que, defendendo publicamente as suas posições e decisões, ainda corre o risco de as mesmas não serem confirmadas no Conselho de Justiça. Os árbitros que testemunharam nos processos do Boavista - Elmano Santos e Paulo Januário - também tiveram coragem? No "ambiente" em que se vivia há uns anos, era preciso ter muita coragem. Felizmente, agora tudo está mais fácil. Seja como for, os árbitros já estão habituados a serem pessoas decididas e determinadas. E a saber os caminhos por onde deverão trilhar. Já falou com eles, depois da sentença da Liga? Com os árbitros eu sou como alguns jogadores de equipas de futebol: jogamos "de olhos fechados". Não é preciso estar sempre a falar com eles. Também acha que o anúncio de Ricardo Costa e a penalização do Boavista em vésperas do jogo com o Sporting pode ter adulterado o desfecho do campeonato? De forma alguma. Mas acredito que, em tese, poderia ter ocorrido. Manifestamente, foi desajustado o timing escolhido. Afinal de contas, bastaria ter deixado passar um dia útil (o dia 9 de Maio). Para quem esperou mais de 4 anos e 1 mês para uma primeira decisão disciplinar desportiva referente ao "Apito Dourado", convenhamos que foi inadequado o momento. Depois do "Apito Final", nada voltará a ser como dantes? Exijo que assim seja. Espero que o presidente da Liga, como bom general, reúna as "tropas" e convoque um "gabinete de crise" entre os presidente dos clubes e os presidentes das associações de jogadores, treinadores e árbitros. Para que sejam tomadas urgentes medidas de defesa e melhoramento do futebol. Para que o negócio das "galinhas dos ovos de ouro" não se esvaia. Para que se faça um pacto de regime e se formalize, sob a égide da Liga, um acordo de concertação desportiva válido por, no mínimo, 4 anos. Defendeu esta semana a criação de um código de ética à semelhança do que existe em Inglaterra. Se lhe competisse redigi-lo quais seriam as três primeiras regras desse código? Respeitar o árbitro e os adversários como se fossem da sua equipa, nunca os menosprezando dentro ou fora do campo. Não discutir, negativa e publicamente, a performance dos demais agentes desportivos do futebol. Trabalhar com grande brio, afinco, zelo e competência para os grandes clientes do futebol: o público. E que restrições colocaria? Vou dar dois ou três exemplos de uma lista de muitos. Quanto aos árbitros, impedia-os de andarem a dizer mal uns dos outros, de se oferecerem aos dirigentes para arbitrar jogos ou de faltarem a jogos que não lhes convêm. Quanto aos dirigentes, impedia os contactos com os jogadores adversários ou os respectivos empresários com vista a uma possível transferência em vésperas de jogos que envolvessem as duas partes ou, um caso ainda mais grave, acabava com os acordos que impedem jogadores de defrontar as equipas que os emprestam; quanto aos treinadores, deveriam perceber, por exemplo, que não é bonito frequentar treinos de equipas cujo treinador está "tremido". Concorda com uma lista de incompatibilidades para os árbitros e dirigentes? Essa lista já existe e está prevista na Lei n.º 112/99, de 3 de Agosto, e nos respectivos Regulamentos da Federação e da Liga. Mas essa lista deve existir também para os dirigentes. Estendendo-se, rapidamente, aos dirigentes das federações, associações e clubes das competições profissionais. Se um árbitro encontrar num local público ( um restaurante, por exemplo) um dirigente da equipa que vai arbitrar nessa semana, que comportamento deve adoptar? Virar a cara? Deve cumprimentá-lo, sem hesitações, o mais correcta e prontamente possível e desejar-lhe toda a melhor boa sorte, inclusive a desportiva, e que o comportamento da sua equipa contribua para que o estádio fique repleto. Mas não deve almoçar com esse dirigente. Um árbitro deve arbitrar um jogo de uma equipa cujo presidente é seu amigo pessoal? Deve descrever, pormenorizadamente, essa relação de amizade ao presidente da Comissão de Arbitragem e deixar que ele decida essa matéria; sem prejuízo de o árbitro poder pedir escusa se entender que tal é mais benéfico para a dignidade e a transparência da competição. O que deve fazer um árbitro se encontrar uma lagosta no balneário, isto para ir buscar um exemplo dado por Valentim Loureiro? Qualquer presente que esteja no balneário deve ser entregue, de imediato, ao delegado da Liga. Nos processos de corrupção na arbitragem, são os árbitros que procuram os dirigentes ou estes que procuram os árbitros? Felizmente, há pouca experiência nesta matéria. Os escassos casos dizem que "se junta a fome com a vontade de comer". Mas os dirigentes são muito espertos, pois bem conhecem as fraquezas de árbitros (felizmente apenas alguns, contados a dedo). O que é que mais o impressionou nas várias transcrições das escutas telefónicas do "Apito Dourado" que foram feitas na imprensa? Em primeiro lugar, a má-criação e a má educação; em segundo lugar, a falta de vergonha de alguns dirigentes e a subserviência de outros; em terceiro lugar, que em Portugal os poderosos pensam que podem espezinhar os mais fracos; por outro lado, que há larga cobardia: o que se diz ao telefone, longe do visado, não se diz na cara das pessoas; e, por último, que há certas pessoas que só sabem "falar" com o dinheiro, mas não com seres humanos. Quanto deveria ganhar um árbitro para o perigo da tentação ser menor? Não há nem pode haver "tabelas" de isenção de perigo. O dinheiro também aguça a tentação dos que já estão cheios dele. Mas, naturalmente, seria um bom contributo e barómetro para reduzir esse perigo que o árbitro pudesse assegurar, ao longo de toda a sua carreira, a aquisição dos clássicos bens essenciais para uma boa estabilidade do seu lar familiar. E qual deveria ser o sistema das classificações de forma a evitar a possibilidade de chantagem sobre os árbitros? Deve passar por, além do mais, ter uma larga componente de avaliação dos árbitros através da análise de imagens televisivas; na próxima época, em sistema experimental e, depois, numa lógica de "velocidade cruzeiro"; mas, em qualquer caso, desde que, paralelamente, acabem as "perseguições" aos árbitros, arrumando-se no "caixote do lixo da história da arbitragem" o artigo 155.º do Regulamento Disciplinar (RD) da Liga (que permite que os clubes possam ser parte activa do processo da avaliação dada aos árbitros). Só há corrupção a norte? A corrupção não se alimenta pela geografia. Mas da má formação desportiva de alguns dos nossos dirigentes, máxime a manifesta impreparação para a gestão de eventos desportivos e de carreiras desportivas. Crie-se, pois, uma escola nacional de dirigentes desportivos, sob a égide da Federação. Aproveitando os fundos da "Convenção de Arbitragem da UEFA". Que estão aí a chegar. Reagiu muito mal às declarações de Luís Filipe Vieira contra a arbitragem de Lucílio Baptista no jogo entre o Boavista e o Benfica. Acha que neste caso o árbitro serviu apenas de bode expiatório? Acho que o Benfica se serviu de um seu direito regulamentar. O qual, é, porém, uma forma de condicionar a tranquilidade pessoal e funcional dos árbitros. Mas foi uma clara "carga fora de tempo". E, para cúmulo, servindo-se de jogos de clubes "concorrentes" no campeonato. Eticamente reprovável. E inaceitável. Como responsável dos árbitros, alguma vez remeteu alguma informação para o Ministério Público? Até agora não. Mas temos prestado toda a colaboração que nos tem sido solicitada. E sempre colaboraremos com todas as autoridades judiciais ou judiciárias. A bem da verdade e da justiça. O que lhe dizem os árbitros sobre estas tomadas de posição da Liga? Concordam com a necessidade de, rapidamente, se "encerrar este capítulo", decidindo-se os processos disciplinares e punindo-se, severamente mas com justiça, os culpados. Para que se "separe o trigo do joio". Há um árbitro por quem ponha a mão no fogo? Ponho-a por todos. Incluindo os que estão provisoriamente condenados. Até porque o ser humano não é fraco todos os dias e pode errar. Embora não mais do que uma vez. Foi dos primeiros a defender a suspensão de Augusto Duarte caso este fosse a julgamento no "Apito Dourado". Essa posição rendeu- -lhe inimigos? Inimigos não. Mas uma ou outra incompreensão. Continuo a dizer: ele deveria pedir a sua suspensão; até para que a sua defesa no processo disciplinar pudesse ter melhor credibilidade e aceitação. Logicamente, não contribuiria para se encher um estádio se ele estivesse a ser julgado em Gondomar numa sexta-feira à tarde e, depois, fosse, à noite, arbitrar um jogo no Estádio do Dragão. Alguns elogios ao Governo e a Laurentino Dias têm merecido a crítica dos seus associados. É um homem colado ao secretário de Estado? Foram apenas duas ou três pessoas que o fizeram. No uso do legítimo direito de associados. Não sou colado ao dr. Laurentino Dias, mas estou ao lado dele na sua cruzada pela garantia da ética desportiva, da funcionalidade e democraticidade das federações, da atribuição de maior peso na representatividade e poder de intervenção aos jogadores, treinadores e árbitros. Estes, pela primeira vez, e desde sempre, estão representados por mim no Conselho Nacional do Desporto. E, como bom transmontano, sou uma pessoa agradecida e respeitador do valor do trabalho dos outros. Nomeadamente, pelo que o dr. Laurentino Dias conseguiu no âmbito da específica fiscalidade dos proventos dos árbitros, bem merece o nosso aplauso. Com Hermínio Loureiro, há melhor Liga? Sem dúvida. Deu-lhe serenidade e ausência de "guerrilhas". Criou uma nova competição. Fez engordar o orçamento com patrocínios de empresas credíveis e estáveis. Embora muito haja a melhorar, soube modernizar os apoios à arbitragem. E tem, paulatinamente, reconhecido a APAF. E tudo isso sem criar o péssimo "antigo vício" (que sei que não tem) de telefonar aos árbitros antes, durante ou depois dos jogos que eles dirigem. Com Vítor Pereira há melhor arbitragem? Manifestamente que sim. Até porque pôde ele carrear a sua experiência de membro da Comissão de Arbitragem da UEFA. Mas o seu "modelo" ainda está, em boa parte, em experimentação. E ainda não atingiu o break even point. Mas poderá vir a ser-lhe atribuída a difícil missão de implementar a arbitragem profissional. O que é que os árbitros pensam hoje do Vítor Pereira? Que é um grande valor acrescentado para a arbitragem. Mas que nunca poderá esquecer-se das suas origens - um excelente árbitro internacional - e de que os seus "clientes" são, sobretudo, e na essência, os árbitros. Qual foi o melhor presidente da Comissão de Arbitragem dos últimos 20 anos? Ao nível da necessária coesão e do forte espírito de grupo, Luís Guilherme. Ao nível do rigor, do respeito público pela classe e da credibilidade da arbitragem, José Luís Tavares. | |
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