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'CRÉDITO MAIS CARO COM MAIOR IMPACTO EM PORTUGAL' PAULA CORDEIRO
António Horta Osório. É o português com o mais alto cargo na City, presidindo ao sexto maior banco inglês, o Abbey International, detido pelo Santander. Ou seja, viveu os últimos meses no centro do "furacão" da crise financeira. Diz-nos como se resiste com bons resultados e aponta os próximos perigos O Abbey, o banco a que preside, triplicou a quota de crédito no primeiro trimestre deste ano, em plena crise financeira. Como foi possível? A estratégia do Abbey, desde que o Santander o adquiriu, assenta em três vectores: aprofundar e desenvolver a posição que o banco já tem no crédito à habitação e passar a ser um banco mais global no retalho, procurando vender mais produtos aos seus clientes. O Abbey tem onze milhões de clientes activos, embora venda menos produtos por cliente que os outros bancos. A terceira vertente consiste em desenvolver outras áreas que o tornam num verdadeiro banco comercial. Não alteraram essa estratégia face à crise? Quando cheguei ao banco adoptei uma estratégia de prudência. Como a economia estava muito acelerada e o ciclo iria virar, embora não soubéssemos quando, reduzimos sensivelmente o crédito ao consumo e baixámos a quota natural do Abbey em hipotecas de 10% para 6%. Quando ocorreu o credit crunch em Agosto, o Abbey estava excepcionalmente bem preparado para reagir e aproveitou melhorando a quota face a outros bancos. Passámos de 6% para 10% no ano passado e para 16% neste primeiro trimestre, no que respeita à quota em crédito à habitação, e subimos os resultados em 17%. Não tiveram qualquer problema de subprime? Nada. O subprime é sobretudo um fenómeno norte-americano. No Reino Unido havia o que se chama o non conforming mortgages, segmentos específicos de mercado e que chegaram a atingir 20% da nova produção em 2006 e 2007. Mas o Abbey não entrou nesses segmentos. Só 3% das nossas hipotecas foram concedidas a empréstimos com valor superior a 90% do valor da casa. Mas todos os dias surgem notícias de execução de hipotecas no Reino Unido, lançando o descrédito. Como vê isso? A economia inglesa tem desacelerado, mas parte de um patamar de crescimento muito elevado. No ano passado, tinha crescido 3,2% e as expectativas para este ano são de que cresça 1,8%, o que é um valor razoável. E as taxas de juro no Reino Unido têm vindo a descer, com o desemprego a aumentar muito ligeiramente. São factores de grande tranquili- dade. Mas onde poderá haver problemas com a desaceleração da economia é na parte do crédito ao consumo. Acha que o pior já passou? Os tempos actuais são de prudência. Os impactos da crise financeira, que correspondem a um corrigir de excessos resultantes de uma euforia financeira - crédito muito fácil, liquidez abundante e barata e critérios de concessão muito relaxados -, trazem agora o reverso da medalha. E a desalavancagem de crédito é sempre mais penosa do que a tomada de mais crédito. Os impactos do que aconteceu desde Agosto foram rápidos no sector financeiro. Mas vão agora, pouco a pouco, passar para a economia real. E ainda estão a meio caminho. Embora os fundamentos financeiros estejam a ser bem resolvidos e o pior em termos de solvência já tenha passado, os aumentos dos spreads de crédito, pela menor disponibilidade de fundos e por critérios de concessão mais apertados, vão ter obviamente impacto na economia real. E Portugal como fica nesta crise? Portugal, infelizmente, vai ser mais afectado do que a média. O País estava a crescer muito pelo mercado externo e a desaceleração global que está a verificar-se afecta Portugal mais do que proporcionalmente. A economia portuguesa depende muito de dois mercados: a Espanha, em forte desaceleração, e a Inglaterra, que também está a desacelerar. Além disso, Portugal é um país muito endividado, quer o Estado, as empresas e os particulares. A menor disponibilidade de crédito a preços mais altos vai ter impactos proporcionalmente maiores em Portugal. Como vê o endividamento excessivo dos particulares? O problema agora não é de endividamento excessivo, porque o crédito vai desacelerar. Mas a concessão de crédito vai ser desigual. Vai continuar a haver bom crédito para bons clientes e bons projectos, mas mais restrições nos empréstimos a projectos mais duvidosos ou a clientes mais arriscados e com pior histórico. Certos sectores vão ter menos disponibilidade de crédito. Os tempos vão ser mais difíceis, há que ser mais prudente e poupar mais. Vai haver menor disponibilidade de recurso ao endividamento. Qual a lição a tirar desta crise? Como em todas as crises, não se deve cometer excessos. E não há dúvida de que se chegou a um excesso de euforia nos mercados financeiros ligados à estruturação e à inovação de produtos, indo-se muito além do que era habitual e ultrapassando os controlos estabelecidos. Esses excessos devem ser corrigidos e controlados. Tal como alguns bancos têm vindo a defender, têm de ser as instituições a auto-regular-se. Controlando a sua oferta Exactamente. É muito importante o esforço de auto-regulação, ou seja, tirar as ilações e corrigir. Há subprime em Portugal? Pelas informações que têm vindo a público, não parece haver. Depois desta crise, o sistema bancário vai ficar diferente, haverá mudança de paradigma? Sim. O modelo de crescimento bancário vai ser muito mais baseado na banca tradicional, de retalho e de empresas, nos depósitos, nos serviços e menos alavancada em produtos complicados de entender. Mais back to basics. Os bancos vão passar a crescer mais pela sua capacidade de atrair recursos e menos pela capacidade de conceder crédito. Olhando para Portugal, como analisa os acontecimentos que têm posto em causa a supervisão bancária, bem como o alargamento da supervisão para a área comportamental? É um tema interessante, até porque em Inglaterra a FSA (Financial Services Autority), que é bastante considerada e que teve os seus problemas com o Northern Rock, tem uma supervisão exactamente comportamental. O Banco de Portugal, como é prática no Sul da Europa, tem uma supervisão basicamente prudencial, mas tem vindo a evoluir e a assumir preocupações mais comportamentais. Não existe uma melhor do que a outra. Ambas são adequadas. A supervisão comportamental tem a enorme vantagem de criar um benchmark permanente de maior exigência. O Banco de Portugal vai no bom sentido, evoluindo para uma supervisão comportamental. Mas em relação ao caso BCP, era possível verificar-se no Reino Unido? Não quero pronunciar-me sobre isso, até porque não existem ainda conclusões. O que é importante, para bem do sistema e da sua reputação, é que haja conclusões claras, transparentes e definitivas sobre o assunto, o mais rapidamente possível. Não me quero pronunciar antes de ver as conclusões. | |
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