|
|
"A música é a minha língua,a minha forma de respirar"
ANA MARQUES GASTÃO
Pode imaginar-se Georges Moustaki num bar mítico em qualquer lugar do mundo, quem sabe se em Casablanca, cantando a liberdade longe do território parisiense onde habita há quase 60 anos. Ou mesmo na sua Ile Saint-Louis. A máquina fotográfica recorta um rosto de olhos escuros, pele matizada a ocre, cabelos e barba brancos. Voz quente.
E essa liberdade existe? "Nem por isso", diz, sorrindo com um toque irónico. Há que conquistá-la todos os dias como se tratasse de uma reivindicação permanente, mesmo no interior de nós próprios. Nascido em Alexandria, viajante. Mr. Moustaki? "Ainda e sempre", responde ao DN, voz grave e lânguida, um tanto rouca.
O autor de Le Métèque, que o lançou, em 1969 como intérprete, acaba de regressar da Holanda, Canadá, Espanha. Mas há outras viagens, aquelas onde não se chega, mas dentro das quais se caminha - as do poema Ítaca de Kavafis -, que percorrem representações de lugares outros na história das civilizações.
E Moustaki sabe que a origem é mãe, uma língua e uma biologia, mesmo que fale mal o grego. Tem, por outro lado, consciência de que o exílio não deixa de ser uma dor, um caminho, percurso infinito de reeencontro consigo próprio, solidão ou júbilo, desejoquot;Sou grande admirador de Kafavis, meu compatriota. Viajo para cantar e canto para viajar."
Georges Moustaki apresenta-se amanhã, às 21.30, na Casa da Música, no Porto e, segunda-feira, às 21.00, no Centro Cultural de Belém, lançando também, em Portugal, pela EMI, o seu mais recente álbum, Solitaire, nostálgico e evocador de uma idade de ouro da canção onde figuram Brel, Aznavour, Brassens, Coluche, Ferrat, Distel. Marcel Azola no acordeão, Vicent Segal no violoncelo, Toninho do Carmo e Marcos Arrieta na guitarra, entre outros que o acompanham nos temps jolis de nos guitares.
Trata-se para Georges Moustaki de "uma homenagem à guitarra e às grandes personalidades que a levaram longe": É exactamente como a viagem, a guitarra, insaciável; faz parte do nosso corpo como se fosse um braço complementar", explica.
Talvez por isso quando parte de férias, a transporte consigo no coração do corpo como uma companhia, uma partenaire. Uma companheira? "Ah, sim, feminina, tem a doçura e o corpo de uma mulher."
Há ambiências portuguesas e brasileiras em Solitaire. Já em Vagabond se haviam gravado onze canções com raízes múltiplas e sabores cariocas com a cumplicidade do músico brasileiro Francis Hime. Neste CD, o caçonetista homenageia a vida, o amigo Tom Jobim, as mulheres e a mãe.
Mais europeu em Solitaire, depois da gravação do álbum do Brasil? "Também se usa neste CD o violão caipira, instrumento existente nos dois países, provavelmente de origem portuguesa. No Brasil há muito de europeu e em Portugal algo do Brasil. As coisas não são preto e branco." E à voz do intérprete de Chante ta nostalgie, au lieu de rien dire, basta um acordeão ou uma guitarra para que a memória se eternize.
"Não é o fado uma música nostálgica? Essa emoção permite o nascimento das canções.", sublinha, registando que "a música é a sua língua; uma linguagem universal, não obstante solitária." Se se lhe fala das críticas ao Maio de 68, de que este terá contribuído para o individualismo hedonista, responde: "É um elogio. Houve sim uma libertação dos costumes." E vai defendendo a preguiça como escuta de um ritmo interior: "Não há que pedir um esforço demasiado ao corpo e ao espírito."|
|